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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Quando os sinos deram o sinal dessa hora, Cândido, como despertando de um sono feliz, exalou um profundo suspiro, e abrindo os olhos, viu Irias sentada diante dele:

– Onze horas! disse o mancebo.

– Sim, é tempo, respondeu a velha; eu vou falar...

Irias e Cândido respiraram e arranjaram-se em suas cadeiras, como se aquela tivesse de contar, e este de ouvir uma dessas longas histórias que se contam nas noites de inverno. E a velha falou:

– Há vinte e um anos...

– Há vinte e um anos?! exclamou o mancebo interrompendo Irias; há vinte e um anos?! não é essa a minha idade?

– Creio que sim.

– A vossa história tem pois relação...

– Saberás, se me quiseres ouvir.

– Falai, disse Cândido torcendo as mãos com vivos sinais de impaciente curiosidade.

A velha continuou:

– Era noite; mas não como esta, que vai indo fresca e bela com seu majestoso e claro luar. Era uma noite de tempestade; a chuva caía a cântaros... os relâmpagos acendiam com intermitência cheia de temores um fogo infernal que cegava; os trovões faziam estremecer os móveis e as casas...

– Má noite!... murmurou pensativo o mancebo; má noite!... que presságio!...

– Que é isso? disse Irias; fazes-te melancólico?

– Não é nada, continuai.

– Eu estava de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora das Dores... rezava tremendo pelos navegantes... e por mim. Nossa escrava respondia às minhas orações... a tempestade... a trovoada continuava cada vez mais horrível, quando às onze horas...

– Às onze horas...

– Uma mão pesada e forte bateu à porta de nossa velha casa... corremos ambas, eu e a escrava: “quem é?..” perguntei.

– Abra pelo amor de Deus; disseram da rua.

– Abri.

Recuei espantada diante de um vulto que entrou: era um homem alto e envolvido em longa capa negra.

– Nada receie, disse ele sem se desembuçar.

– Quem é o senhor? e o que quer de mim?... perguntei.

Em vez de responder-me, o homem fechou a porta por onde acabava de entrar, e ao som dos trovões... perguntou-me:

– A senhora é cristã?

– Eu rezava quando o senhor bateu, respondi.

– Pode-se rezar e não crer, tornou-me. Pergunto se é cristã, se sabe sê-lo.

Por única resposta mostrei-lhe a imagem de Nossa Senhora das Dores, a cujos pés tinha eu estado há pouco.

– Nossa Senhora das Dores! exclamou o homem desconhecido: o símbolo da maternidade! a mãe de todos os homens!... de joelhos pois, senhora.

Eu me ajoelhei de novo diante da imagem, e o desconhecido prosseguiu:

– Em nome da mãe de Deus, que é também, e principalmente, a mãe dos órfãos e dos pobres, aceita, mulher, como teu filho esta infeliz criança recémnascida, que não tem por si no mundo senão o olhar piedoso que do alto do céu está sem dúvida lançando sobre ele a Virgem...

– E tem tudo portanto! acrescentei eu com o coração cheio de fé.

O desconhecido lançou para trás a capa, e entregou-me uma inocente criancinha recém-nascida, que acabava de fazer o seu passeio no mundo ao clarão dos relâmpagos e ao som dos trovões.

Recebi-a de joelhos como estava; era tão galante essa criança! jurei amá-la como se tivesse saído de minhas entranhas; jurei pela Santa Virgem, que seria sua mãe.

A criança dormia tão sossegada!

Olhei para a imagem da Senhora... pareceu-me que sorria... que me estava animando com um olhar protetor...

A chuva tinha parado... os trovões não se ouviam mais: era sem dúvida um milagre de Nossa Senhora.

Examinei a criança... era um menino.

– Como se chama este menino? perguntei.

– Ainda não tem nome.

– Que nome lhe darei?

– O que quiser.

– Sua família?

– Pois não está vendo que é um enjeitado?

– Bem, eu o adoto; é meu filho.

– Deus lho há de pagar, disse o desconhecido. Mas a senhora é pobre... eis

aqui com que pagar-lhe a ama. Depois... se ele viver, uma mão misteriosa cuidará em sua educação; como um amigo incógnito velará por ele.

E deixando sobre a mesa uma bolsa cheia de ouro, o desconhecido envolveuse de novo em sua capa, abriu a porta e desapareceu.

A noite já estava bela e clara; bela e clara como o dia.

Fiquei só com o menino.

– E esse menino, disse tristemente Cândido, esse menino era eu.

Examinei-o todo, continuou a velha; e nem uma letra em suas roupinhas para designar sua família, e nem um sinal em seu corpo para fazê-lo conhecido de seus pais.

– Oh!... é minha mãe, senhora? perguntou Cândido.

(continua...)

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