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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Não, não se compreende assim tão facilmente essa dor indizível, que vem do fundo da alma... do âmago do coração, queimando-o devagar e cruelmente, como uma língua de ferro em brasa!... é preciso, para bem compreendê-la, ser pai, e ter visto nascer e ir crescendo uma criancinha, que se adora como a pupila dos próprios olhos... uma menina bela... filha da mulher que mais se amou no mundo, que com essa mulher se parece, e que vai crescendo debaixo das vistas desveladas dele mesmo, como um lindo arbustinho sob os cuidados de vigilante jardineiro... que, enfim, já é moça encantadora e virtuosa, que se sonha, que se conta fazer venturosa, e que se vê de repente tombar na miséria!...

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Chegaram as horas do jantar.

Hugo de Mendonça, querendo ainda esconder à sua mãe e filha a desgraça que sobre eles todos caíra, foi sentar-se à mesa, fingindo-se alegre e sossegado.

Passados alguns momentos, porém, quando levava aos lábios um cálix de vinho, fitou os olhos em Honorina... embebeu-os no rosto docemente pálido daquele anjo de beleza, que em breve seria mártir... e, como para abençoá-la, deixou cair o cálix da mão... e, não podendo mais suster-se, atirou-se chorando sobre a filha, a quem abraçou com violenta efusão de ternura.

Era impossível ocultar por mais tempo o triste segredo: tudo foi revelado.

Meia hora depois, Honorina estava ainda nos braços de seu pai, molhando suas faces com as lágrimas que dos olhos dele corriam, animando-o, e chorando também.

— Era de prever! disse Ema finalmente; uma grande desgraça tinha de vir sobre nós, pois que havia desaparecido a cruz da família!... sete anos se passaram... mas ei-la!... eis a desgraça... irremediável!!!

— Minha mãe!...

— É preciso vender tudo, Hugo; é necessário pagar essas dívidas com os teus, com os meus, com os bens de tua filha...

— Oh!... é a miséria para vós!...

— E a riqueza para ele!... embora... não se há de tocar por modo algum na herança do infame!...

— Minha avó, por que falar assim?!...

— Pois não é ele quem tem culpa de tudo isto?... ele!... esse Lauro!...

E o rosto da velha tomou uma expressão terrível de ódio e de vingança; ela ergueu sua mão trêmula, e com voz forte exclamou:

— Maldito!... maldito!... maldito seja o miserável!...

Nesse momento um escravo entrou na sala e entregou a Hugo uma carta, que acabava de chegar. O negociante a abriu imediatamente e leu a assinatura.

— Lauro!... disse ele.

— Lauro?!... exclamaram as duas senhoras.

Hugo de Mendonça leu alto o que continha a carta.

“Meu tio. Recebi a carta, em que V. M. rejeita a doação que fiz à minha prima de herança que me coube pela morte de meu pai; e de novo me convida para ir receber o que me pertence. Pois bem, meu tio, somos ambos teimosos; mas agora preciso é que também cedamos ambos, e transijamos em alguma coisa. Eu conto demonstrar, em breve, que me caluniaram, os que me denunciaram como perpetrador do furto da cruz da família; e, pois, poderei cedo entrar com o rosto descoberto na casa de meus pais; em conseqüência eu proponho a V. M. o meu casamento com minha prima Honorina, de quem tenho recebido as mais lisonjeiras notícias; se isso lhe for agradável, exijo, como condição, que V. M. empregue todo o produto da minha herança no desempenho da casa, que, segundo me informam, meu avô deixou em difíceis conjunturas: o crédito do nome, que eu já tive, e que ainda terei, deve ser sustentado por todos nós.

Cidade da Bahia, setembro... de 1844.

Lauro.”

Depois da leitura desta carta reinou profundo silêncio durante alguns minutos.

Ema havia primeiro pensado que, empregando-se a herança de Lauro, vencer-se-iam as maiores dificuldades com que lutava a casa. mas para logo abafou esse pensamento, porque; teimosa em tudo, e sempre inabalável em todos os seus juízos, ninguém a fazia crer que podia não ter sido Lauro o roubador da cruz da família; e ela jamais consentiria em sacrificar Honorina a um homem sem honra.

Hugo de Mendonça achava a proposição muito conveniente; por sua vez, porém, recuava ante a idéia de negociar com o coração de sua filha.

Honorina tremia, pensando em seu pai e no moço loiro.

Depois de muito tempo de penoso silêncio, Ema falou com voz grave e firme:

— Não; de modo nenhum.

E Hugo de Mendonça, com acento ainda mais firme, com o tom do homem absolutamente decidido, disse:

— Minha mãe, a esta carta só uma pessoa deve com toda liberdade responder: o sim ou o não, só dela partirá. Honorina, tens a tarde, e a noite de hoje, e o dia de amanhã para pensar; e nós teremos a noite do dia que se vai seguir para receber tua resposta terminante e livre.

XXIX

Honorina meditando

A solidão é o espaço encantado, onde o espírito se derrama livremente...

(continua...)

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