Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Bem — disse-me Lucrécio. — Vai haver uma reforma nas Belas-Artes e eu vou apresentar você ao senador Sofônias.

Sofônias era nesse tempo o Diretor da política nacional e fiquei admirado que um humilde “capanga” tivesse préstimo para tanto. Ele ainda insistiu:

— Veja lá, hein? Não faça feio.

Dentro em breve, fui apresentado por Lucrécio ao senador. Ele falava com um longínquo sotaque espanhol, e tinha um olhar vidrado de agonizante. Recebeume prazenteiro, como todo brasileiro a quem se solicita qualquer coisa!

— Então, menino, você é pintor?

Ele dizia menino com o “e” muito aberto; e “pentor” como se o “i” fosse “e”.

Respondi-lhe que sim e, para provar-lhe, fiz ali mesmo um “croquis” de seu retrato. Achou-o muito parecido e guardou-o. Ao jeito de lisonja, disse-lhe eu:

— V. Exa. parece-me com Suivaroff.

— Quem? — indagou.

— Suvaroff... Um grande general russo, vencedor dos turcos. — Ah! Gosto desses homens de energia.

Estivemos conversando sobre a Rússia que ele conhecia tanto como eu o México ou a Nova Zelândia. Aludiu à guerra russo-japonesa:

— Vocês perderam porque não são uma república. Lá há muitos revolucionários. O despotismo é grande lá.

Quis objetar-lhe que o Japão era também um Império e ganhara, e a França, por ser um país teoricamente liberal, tinha uma corrente revolucionária tão forte como a Rússia. Não lhe disse nada e concordei. Não se discute nunca com os protetores. Sobre a minha pretensão, ele me falou da seguinte maneira:

— Menino, você quer um lugar nas Belas-Artes, não é?

— É, senador.

— Lá não é possível. Já fiz muitos pedidos. Você não entende nada de agricultura?

Lembrei-me de meus dias de colono e respondi com toda a firmeza:

— Entendo alguma coisa. Até em pecuária tenho certas idéias e, caso o governo queira, posso experimentá-las. — Quais são?

Acudiu-me então dizer:

— Posso criar porcos que cheguem ao tamanho de bois e bois da altura de elefantes.

— É maravilhoso! Como você procede?

— É uma questão de alimentação. Processos bioquímicos, já experimentados em outras partes, que aperfeiçoei.

— Bem, menino. Vou mandar você ao Xandu e lá você expõe as suas idéias.

Esse Xandu era ministro da Agricultura, para quem o senador Sofônias me deu uma carta eloqüente e persuasiva.

Procurei o ministro que me recebeu com certa frieza, mas, desde que leu a carta do senador, fez-se prazenteiro e amável.

— Ora, Doutor! Desculpe-me! Desculpe-me! Não sabe como ando atarefado. Hoje já assinei 1597 decretos... Sobre tudo! Sobre tudo! Neste país tudo está por fazer! Tudo! Em três meses tenho feito mais que todos os governos deste país. Já assinei 2.725.832 decretos, 78.345 regulamentos... 1.725.384.671 avisos... Um trabalho insano! Fala inglês?

— Não, Excelência.

— Eu falo. Desde que o falei com desembaraço, as minhas faculdades mudaram. Penso em inglês, daí me veio uma salutar reação mental que me interessou todo inteiro. Gosto muito do inglês, com o sotaque americano. Experimente... Brederodes (gritou ele para o secretário) já temos aquele regulamento sobre a “postura” de galinhas?

Respondeu-lhe o secretário e voltou-se para mim, febril:

— O que nos falta é o frio. Ah! A sua Rússia! Eu, se quero ser sempre ativo, tomo todo o dia um banho de frio. Sabe como? Tenho em casa uma câmara frigorífica, 8 graus abaixo de zero, onde me meto todas as manhãs. Precisamos atividade e só o frio pode nos dar. Penso em instalar grandes câmaras frigoríficas nas escolas, para dar atividade aos nossos rapazes. O frio é o elemento essencial às civilizações... Mas, — emendou a alta sumidade — ainda não lhe falei sobre os seus planos. O Sofônias fala-me aqui das suas idéias sobre pecuária. Quais são?



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...9596979899...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →