Por Aluísio Azevedo (1895)
- Não. Seria uma tolice, que eu a mim mesmo nunca perdoaria! Bem sabes que os meus negócios não vão bem, atravesso uma crise muito séria, extraordinariamente séria! A guerra tem me feito um mal diabólico! Se me descuidar, estará tudo perdido, tudo! Nesta reunião de hoje vou tratar do nosso futuro; é o interesse que me conduz e não devo faltar! - Bem, vai!
- Adeus.
- Adeus.
Ele tornou a beijá-la na fronte e depois saiu.
Branca ficou imóvel, junto à porta, a segui-lo com os olhos. Viu-o descer muito lépido a escadaria de pedra, atravessar a chácara e ouviu depois rodar o carro lá fora.
- Qual dos dois será o mentiroso? este ou o outro?... balbuciou ela, deixando pender a cabeça para o peito e entregando-se a uma cisma atormentadora e ensombrecida pela dúvida: Qual dos dois será o infame? Talvez ambos ...
Despertou com a voz do primo.
- Então? Ele sempre foi? perguntou este com um sorriso.
Branca respondeu sem falar, procurando esconder a sua preocupação. Deu uma pequena volta pela sala, afinal foi colocar-se ao lado do primo:
- Onde é a entrevista, sabe?
- No Catete.
- Em casa de quem?
- Na minha.
- Na sua casa?
- Ele pediu-ma e eu não podia negar. Não acha?
- Fez bem.
E ela acrescentou, depois de uma pausa aflita, aproximando-se mais de Aguiar: - Meu primo, o senhor disse que é meu amigo, não é verdade?
- E sustento.
- Pois bem, prove-o, não dando uma palavra a respeito do que eu vou fazer.- Juro que não darei, mas peço em troca uma promessa do mesmo gênero.
- Fale.
- A prima não dirá a Teobaldo quem foi que o denunciou.
- Pode ficar descansado.
Dito isto, Branca foi ao tímpano e vibrou-o.
Apareceu um criado.
- O Caetano que se apronte para sair e venha imediatamente aqui; você vá chamar um carro. Depressa!
- Vai certificar-se? perguntou Aguiar à prima, feliz com aquela intimidade que o aproximava mais dela e como que o fazia seu cúmplice, estabelecendo entre eles um segredo, um pacto e um juramento.
Branca respondeu que sim, queria certificar-se com os seus próprios olhos.
- E que meios tenciona empregar para isso?
- Espiá-los.
- Mas, de que modo?
- Postando-me defronte da casa.
- E se eles já tiverem entrado e se fechado por dentro?
- Espero que saiam.
- Mas é que dessa forma a prima será descoberta e terá de passar longas horas a esperar na rua, metida em um carro de aluguel, talvez arriscando a sua reputação...
- Que então hei de fazer?
- Seguir os meus conselhos. Eu me comprometerei a levá-la a um lugar, donde a prima poderá observá-los a vontade e sem ser vista.
- Ir em sua companhia?...
- Parece-me que sempre é mais prudente do que ir em companhia do Caetano... Lembrese de que esse velho a ninguém preza neste mundo como a Teobaldo e que não resistirá por conseguinte ao desejo de contar-lhe tudo!
- Pouco me importaria eu com isso!.
- Sim, mas importo-me eu. Se Teobaldo chegasse a descobrir a armadilha, descobriria também quem a armou. Ao passo que, indo a prima só comigo, eu a faria entrar misteriosamente pelos fundos da casa e levá-la-ia a um lugar seguro donde, já disse, os poderia ver, sem que ninguém desconfiasse da sua presença.
O velho Caetano acabava de aparecer à porta da sala, todo paramentado com a sua libré nova, a cabecinha já muito branca e vergada ao peso dos seus setenta anos.
- Espere, Caetano, disse-lhe Branca, encostando-se a um móvel, como para melhor resistir às idéias que a acabrunhavam.
É que ao seu espírito altivo e leal repugnava tudo aquilo, sentia-se mal, como se estivesse premeditando uma infâmia.
- Você já não é necessário, declarou Aguiar ao criado, enquanto ela pensava.
O velho Caetano fez uma respeitável continência e apartou-se sem dar palavra, arrastando os seus cansados pés e afagando lentamente com a mão a nuca encanecida. Branca teve afinal um gesto resoluto de cabeça, foi ter com o primo o perguntou-lhe com a voz tão firme quanto era firme o seu olhar:
- Dá-me a sua palavra de honra em como não deixará de ser cavalheiro um só instante enquanto estiver ao meu lado?
- Dou-lhe a minha palavra de honra em como a respeitaria como minha irmã ou minha mãe!
- Bem. Aceito a sua companhia.
E retirou-se por alguns segundos para ir por uma capa.
- Podemos ir, disse ao reaparecer na sala.
O primo deu-lhe o braço e os dois saíram juntos.
VIII
Chegaram sem o menor incidente ao destino que levaram.
Aguiar fez conduzir o carro pela rua dos fundos da casa e apeou-se defronte de um portão, dizendo à prima:
- Entre sem receio.
- Mas...
- Calculando a sua vinda, dei todas as providências para que nada nos estorvasse.
- Como?
- A sala, onde seu marido há de estar com a sujeita, tem uma janela que despeja para aqueles lados.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.