Por Aluísio Azevedo (1897)
Principiou a obra, no meio de um grande silêncio compungido, em que se arrastavam suspiros espaçados.
Ouviase ranger o carvão sobre o papel de Holanda. Ao lado dele, o amigo que o levara acompanhava com a vista o trabalho, e procurava ajudar o desenhista, lembrando particularmente da fisionomia do defunto.
— Olha que ele tem as ventas mais abertas e o queixo mais magro!... dizia, com a voz misteriosa e benfazeja. Puxa o cabelo mais para a esquerda!
Gustavo não protestava por delicadeza, mas as pessoas que lhe ficavam em frente bem percebiam a sua contrariedade.
Uma velha já se havia chegado para junto do retratista, com o rosto seguro pela mão esquerda e o cotovelo apoiado na direita.
Depois, vieram outros, até que afinal se viu Gustavo cercado por todos os lados. Entre essas pessoas estava, como milagre, a dona daqueles bonitos olhos, que pela manhã, no colégio das irmãs de caridade em Botafogo, se lhe haviam gravado no coração; mas Gustavo, sem desprender a vista do trabalho, deles sentia apenas o doce eflúvio banharlhe a alma.
O defunto, estendido no seu canapé, parecia estar só à espera que o rapaz lhe acabasse o retrato, para resolver numa gargalhada escarninha, o inquietante sorriso que abominavelmente lhe entretorcia os lábios de múmia.
Gustavo pediu que retirassem das ventas do retrato duas bolinhas de algodão que ali lhe haviam posto.
Às seis horas da tarde, estava pronto o desenho Gustavo assinouo, e entregouo à dona da casa.
— São quarenta milréis, disse, com pretencioso ar de artista.
— Bem, respondeu aquela; mas o senhor fará o obséquio de mandar receber amanhã, porque a pessoa que tem de dar o dinheiro só mais tarde chegará.
No dia seguinte, ainda no corredor, a lavadeira disselhe que a obra não valia quarenta milréis; que o pagador da encomenda não achava o retrato parecido, nem sequer bem desenhado; que o autor de semelhante caricatura devia contentarse com vinte milréis!...
E, como Gustavo recalcitrasse, veio o próprio dono da encomenda despachálo.
O quê?! Pois tu é que és o tal artista? disse o Médico Misterioso, muito surpreendido defronte de Gustavo.
— É verdade, meu tio, sou eu.
Gaspar não pôde deixar de rir.
Como o leitor já compreendeu naturalmente o morto, que Gustavo retratara com mais convicção do que perícia, era Alfredo, o nosso velho Marmelada; e a lavadeira era Genoveva, que se não podia consolar da perda do seu querido companheiro.
— Uma cousa é ver e outra é dizer, minha rica amiga, explicava ela à velhinha Benedita, que aparecera para fazer companhia ao cadáver. Era um santo homem! Nunca lhe vi o nariz torcido; sempre amável, risonho e procurando meios e modos de agradarme! Coitado!
As amigas ouviam estas palavras a sacudir simultaneamente a cabeça, como se uma só invisível mola imprimisse a todas o mesmo movimento.
— Ai! ai! disse uma.
E o coro respondeu:
— Ai! ai!
— É o caminho de nós todos! sentenciou outra.
— Digolhe com franqueza, continuou Genoveva, empenhada na conversa com Benedita; o defunto comendador, apesar de ser quem era e do muito que gastava comigo, nunca me deixou tantas saudades com esta criatura! Não sei que diabo tinha este homem para se ficar gostando tanto dele!...
— É a amizade que a gente toma! procurou explicar sentenciosamente a velhinha Benedita; mas, para consolar você não se deve agora matar por amor disso!... o que não tem remédio, remediado está!...
— Mas custa tanto!...
— Custa, é verdade; mas se tenho de ir eu, vá meu pai que é mais velho!... resumiu a velhinha com o seu riso egoísta.
— Ai! ai! suspirou Genoveva.
E passou a descrever a moléstia e a morte de Alfredo:
O homem, há muito tempo já, não andava bom; queixavase de uma pieira no peito e de um cansaço aborrecido nas pernas. Às vezes ficava amarelo e com fastio, que Deus nos acuda! — "Desta mesmo não me levanto!" eram as suas palavras de todo o instante; e ultimamente então deu para ficar nervoso por tal forma, que não pregava olho durante toda a noite... Foi nessa época que aquele malvado o despediu do emprego! Imaginem vocês como o pobre do homem não ficou! Nunca mais levantou a cabeça! Até que ontem, quando eu estendia a roupa para corar, veio a negrinha dizer que seu Alfredo estava roncando na cama, muito aflito... Larguei tudo de mão, e corri para junto dele. Remédio daqui! remédio dali! mas qual! o pobre homem roncava, roncava, muito agoniado, sem encontrar posição na cama; até que afinal tive um palpite, e mandei chamar o Dr. Gaspar, que é homem que nunca se negou aos pobres! Veio o doutor, viu, examinou — estava morto! Então pedi ao médico a esmola de pagar a um desenhista o retrato do meu defunto!
— Não! respondeu Gustavo. O senhor declarou já que a obra não presta! Não aceito pagamento!
— Mas, vem cá, meu filho! eu não sabia que o trabalho era teu!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.