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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 Marcou-se o dia. O fazendeiro mandou chamar o Filipe com sua gente, e aumentou a capangada para receber a visita do Bugre. 

 Antes de partir quis Jão Fera despedir-se de Berta e com esse pensamento dirigiu-se para a casa de nhá Tudinha. Levava a alma a transbordar e carecia nesse instante supremo da eterna separação vaza-la no coração da menina. 

 Berta cosia, sentada em seu canto habitual, à sombra do oitão da casa. O Bugre avistou de longe e parou oculto pelas árvores para contempla-la com religiosa adoração. 

 Passando o primeiro enlevo, quando lembrou-se do pensamento que o trouxera, não se animou a dar um passo e aparecer à menina. 

 Pressentia o horror que deviam ter causado em Berta as mortes por ele perpetradas na noite de São João, e a abominação que desde aí lhe votava aquele coração puro e santo. 

 Se a menina soubesse da trama urdida pelo Barroso contra Luís Galvão, talvez lhe perdoasse tamanha atrocidade, cometida na ocasião de salvar uma existência tão querida para ela. 

 Mas a menina ignorava, e não seria ele decerto quem lhe havia de revelar o terrível segredo, confessando a sua vergonha de salvar o mais vil dos homens. 

 Não foi este, contudo, o mais poderoso dos motivos que lhe tolheram o impulso. Berta naturalmente lhe perguntaria a causa da sua estranha resolução de entregar-se à prisão; e seria necessário tudo revelar. 

 A idéia de que a menina se pudesse afligir por ter causado, embora involuntariamente, a sua perda, o assustava. Ignorasse ela sempre quanto custara o juramento que lhe dera, de poupar a vida de Luís Galvão; e não sondasse nunca os antros profundos dessa consciência onde rugia o desespero. 

 Fechou os olhos o Bugre para subtrair-se ao encanto da gentil menina, e, arrancando-se com esforço àquele sítio, sumiu-se no rumo de Campinas. 

 Eram quatro horas da tarde, quando um homem à pé e coberto de pó chegava à tronqueira da fazenda do Aguiar. 

 Da janela do sobrado, onde por um excesso de prudência se fora postar, avistou o Aguiar ao caminheiro, em quem os capangas, agrupados no pátio, já tinham reconhecido Jão Fera. 

 Ligeiro calafrio correu pela medula desses homens valentes e avezados ao perigo. 

 Abriu o Bugre descansadamente a tronqueira, e avançou com a costumada pachorra para o terreiro, como quem entrasse por sua casa. Aí chegando, saudou o fazendeiro e outras pessoas com um toque no chapéu. 

 - Tenham todos boa-tarde. 

 Tão surpresos ficaram os outros daquele sossego, que nem se lembraram de responder à saudação. 

 - Aqui estou eu, meus senhores, na forma do prometido, tornou o Bugre com um triste sorriso. 

 O Filipe trocou um olhar com o patrão e acenando à sua gente, avançou para o Bugre. 

 - Pois renda-se, homem, que é o melhor. 

 - Alto lá, camaradas! disse Jão Fera vendo os capangas se aproximarem com intenção de agarra-lo. Não se cheguem muito. 

 - Deixe-se de partes! 

 - Os senhores sabem se eu tenho palavra. Estou aqui por minha vontade; e do mesmo modo irei para onde quiserem. O ajuste foi entregar-me; e me entrego mesmo. Mas se algum me puser a mão, está tudo perdido. 

 Retraiu o Bugre o pé esquerdo; e os ombros agitaram-se com uma ligeira contração, enquanto nos olhos torvos fuzilava um relâmpago. 

 Os capangas hesitaram; e a um aceno do fazendeiro, que do sobrado assistia à cena, Filipe acomodou a coisa. 

 - Está bom, camaradas, não zanguemos o homem. 

 - Para onde me levam? É para Campinas? Pois vamos lá! disse Jão Fera. 

 - Não há pressa. O senhor pousa aqui e amanhã com a fresca da madrugada nos botamos para lá. 

 O Bugre fez um gesto que exprimira indiferença; e sentando-se no ressalto da calçada, que havia no terreiro, preparou um cigarro e começou a pitar. 

 Mas nenhum dos capangas se animou a aproximar-se. Através do ar negligente e absorto da fisionomia do Bugre pressentia-se a viva atenção, que exercia em torno uma vigilância incessante. 

 À noite o Filipe convidou Jão Fera para cear com os outros camaradas. Ele, porém, recusou, contentando-se com um trago de aguardente. 

(continua...)

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