Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Com as mãos apertadas ao seio para recalcar a efusão de seu júbilo, murmurou consigo: 

- Ele me ama, sem o pensar. Quando viu-se livre, lembrou-se que nada o separava de mim. Mas eu sou rica e o mundo não acredita que se possa amar uma mísera criatura de carne, de preferência a uma barra de ouro!... Ricardo duvidou de si, ele mo disse há pouco; julgou-se arrastado para mim, não pelo afeto mas pelo interesse. Então, revoltando-se contra si mesmo, em vex de me dizer:

- “Sou livre, aceito” – ao contrário, procura cavar um abismo que o separe para sempre de mim, a fim de não sucumbir à tentação. Não pode mais amar? Pertence à outra para sempre? Pois bem! Assim é que eu o quero, para afastá-lo tanto desse pesadelo vivido sem mim, que não se lembre de ter jamais amado a outra mulher. 

Estes pensamentos não os alinhou Guida em palavras na mente, mas desenhavam-se como figuras de painel iluminadas de repente por um jato de luz. Também não duraram senão o tempo de abrir a carta de Bela, que a moça amarrotara entre as mãos, quando comprimira a arfagem do seio. 

Leu Guida uma e duas vezes. Na Segunda, sua mão caiu-lhe desfalecida. Compreendera tudo: divisara naquele papel mudo o pensamento de Bela como perscrutara pouco antes o segredo do advogado através de suas palavras confusas. 

Dobrou a moça a carta enquanto se dominava e aproximou-se de Ricardo: 

- Bela o ama, como eu pressinto que havia de amar, se Deus não me houvesse retirado sua graça. 

- E esta carta? 

- É uma sublime abnegação. Bela acreditou que era ela quem a condenava à pobreza e à obscuridade. Enganaram-na certo, asseverando que o senhor tinha outra afeição; fez o que devia: renunciou à sua felicidade para não sacrificar aquele a quem ama. 

Ricardo abriu a carta que a moça lhe restituíra, e leu-a de novo. Ali estava a alma de Bela, a santidade daquele coração em todo esplendor. Fora preciso que a palavra pura e nobre de Guida lhe dissipasse a névoa dos olhos para que ele visse. 

Erguendo os olhos, pousou-os brandamente no rosto de Guida. 

- A senhora que lê no coração de Bela, inspire-me! Que devo fazer? 

Guida voltou-se e colheu uma folha de avenca, nas fendas de um velho muro. Era um disfarce para ocultar o soluço que rompia-lhe o seio. 

- O seu dever. Bela espera a resposta; é ela que vai decidir de sua sorte. Vá, vá a São Paulo e... 

Pareceu que a voz de Guida afogava-se num soluço. Ricardo olhou, e viu-a sorrindo acabar a frase:

- E seja feliz! 

A moça foi ter com Mrs. Trowshy e instantes depois, terminado o passeio, retirava-se Ricardo. 

- Ela não pode amar-me!... pensou o moço em caminho para a cidade. E eu... eu tenho medo de amá-la! 

Dois dias depois partia o vapor de Santos. Ir a São Paulo, como lhe dissera Guida, foi idéia em que não se demorou o ânimo do advogado; não o permitia o escritório, nem o estado de seu espírito. Resolveu porém escrever a Bela em termos que a demovessem da suspeita de não ser amada, como o fora sempre. 

- Serei eu quem me sacrifique à sua felicidade. 

No momento de pôr a pena no papel corou: nunca poderia escrever o que não sentisse; não falou a linguagem do coração, mas a da razão. 

 

“Bela 

A vida é uma coisa bem séria, que não se deve fazer tema de caprichos e arrufos. 

Amamo-nos desde a infância, e juramos unir-nos para sempre. Pertencemo-nos pois um ao outro, e nada neste mundo a não ser a violência pode jamais separar-nos. 

Vi em sua carta uma suspeita, que não devia demorar-se em seu espírito. Considero-me seu marido perante Deus; e conheço meu dever. 

Adeus, etc. 

Ricardo” 

 

Esta carta fria e austera ainda mais confirmou Bela na convicção de que já não era amada como o fora outrora. 

Documento do nobre caráter de Ricardo, tinha a secura do pergaminho. 

Contudo a moça não precipitou o desfecho do drama íntimo de sua vida, e deixou escoar-se o tempo, até que decorridos uns três meses e insistindo seu pai em favor do Felício, arrancou-lhe o consentimento para essa união. 

 

XXXII 

 

Depois da entrevista de Andaraí, Guida e Ricardo encontraram-se freqüentemente na sociedade. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...9495969798...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →