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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Tenho uma lembrança de seu marido, mulher, disse o capitão-mór. Parece-me que o vi no Icó, numa festa. 

— É isso mesmo! 

O Campelo não se recordava de tal Nogueira; mas entendeu que não podia ser alheio a um homem, que tinha por sua pessoa aquele profundo acatamento. 

— Que aconteceu então a seu marido? 

— Apareceu na Barbalha êste ano um tal Proença que foi toda a nossa desgraça. 

— Um conhecido por Vareja? perguntou Campelo. 

— O próprio. Êsse homem não sei por que tinha raiva do sr. capitão-mór, e então foi meu marido quem pagou; porque um dia apresentou-se em nossa casa com três cabras, e intimou ao sr. 

Nogueira, que pusesse a bôca em vossa senhoria, e o chamasse já e já de… Não me atrevo a dizer.

— Há de atrever-se, mulher, que lhe ordenamos nós. Chamasse de quê? 

A viúva fez um esfôrço: 

— De sapo cururú. 

O capitão-mór que já a custo sofreava a cólera, saltou como uma explosão: 

— Agrela, mande já sem demora encilhar os cavalos, que eu não durmo enquanto não ensinar o cabra! Vá aprontar a minha maca, D. Genoveva. Não ouve, senhora? 

Enquanto a mulher e o ajudante saíam a cumprir suas ordens, o capitão-mór cruzava o terreiro a largos passos, sôfrego de montar a-cavalo. Amainando a refega da ira, caminhou para a viúva que ficara imóvel no mesmo lugar: 

— E seu marido que fez, mulher? 

— Nogueira? Não tinha que saber. Disse e repetiu que o sr. capitão-mór era o primeiro homem do mundo e a Providência desta terra, pelo que o havia de louvar sempre. Foi então que o malvado gritou:

— «Pois eu faço tanto caso dele como de um surrão velho, e toma lá a prova». 

Matou meu marido, deitou fogo na casa… 

Os soluços e lamentações da viúva eram abafados pela voz do capitão-mór que retumbava: 

— Meu bacamarte, D. Genoveva! Onde estão êstes cavalos? Pegou no sono, Agrela? Anda com estas botas, negro do inferno? 

Êsse Vareja era um sujeito de Russas. Tendo uma vez dito que o Campelo não era capitãomór às direitas, porisso que o Quixeramobim ainda não subira a vila; e sabendo disso o potentado, mandou-o chamar, com o que tal mêdo tomou, que desapareceu, e não houve mais novas dele. 

Por aquí se avaliará da gana que devia ter o capitão-mór, de agarrá-lo para pagar-se do novo e do velho. 

D. Genoveva, a-pesar-de habituada a estas sortidas, afligira-se com aquela partida tão precipitada. A ausência do Campelo naquela ocasião a assustava: nem ela sabia por qual motivo. Entretanto não se animando a opor-se diretamente à resolução do marido, incumbiu a D. Flor dessa difícil missão. 

A donzela exercia no ânimo do pai decidida influência, e isso provinha do dom que ela tinha de identificar-se com a sua vontade, de modo que cedendo-lhe, pensava o capitão-mór que cedia a si mesmo. 

D. Flor não usou de nenhuma das razões em que a mãe insistira; não empregou argumento de família. Abundou no sentimento do pai; mas confessou-lhe que admirava-se de sua partida. 

— Por quê? 

— É dar muita importância a um vilão. Basta que mande buscá-lo por uma escolta. Que não dirão quando souberem que o capitão-mór Campelo abalou-se de sua fazenda para prender um bandoleiro? 

— Pois mandarei o Agrela. 

— Isto sim. 

Nesta conformidade, deu o capitão-mór suas ordens; e o ajudante preparou-se para sair naquela mesma hora com uma escolta de cincoente homens. 

Arnaldo chegava nesse momento, e a primeira vez que viu Águeda, experimentou uma sensação estranha, que se poderia chamar de acerba admiração. A esplêndida beleza dessa mulher, que o arrebatava a seu pesar, fazia-lhe mal, como se o fulgor que dela irradiava lhe queimasse a alma. 

Quando o sertanejo soube da próxima partida do Agrela, ficou preocupado. Podia o ajudante demorar-se na expedição, e nesse tempo voltar o Fragoso de Inhamuns. 

Antes demeio-dia partiu a escolta. Já iaa na várzea, quando saíu-lhe ao encontro Arnaldo que aproximou do cavalo de Agrela o seu. 

— Preciso falar-lhe, sr. ajudante. 

— Da parte do sr. capitão-mór? perguntou Agrela secamente. 

— Da minha. 

— Que negócio pode haver entre nós? tornou o ajudante surpreso. 

— O serviço dos donos da Oiticica, respondeu Arnaldo com o tom firme. 

Agrela inclinou a cabeça com um sinal adesivo e demorou o cavalo, acenando à escolta que passasse adiante. Quando se acharam sós, voltou-se para o sertanejo. 

— O que há? 

— O sr. Agrela não me gosta; não sei a razão, nem a pergunto. Eu por mim não lhe quero mal, e espero que ainda havemos de ser amigos. 

O ajudante comoveu-se com essa linguagem singela e nobre: 

— Estimarei que assim aconteça. 

(continua...)

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