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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— É singular, disse ele; o vento pode apagar uma candeia, mas não lhe tira o pavio. 

— O vento, dizeis. Acaso o vento tem sangue? 

— Que quereis dizer? 

— Que o vento que apagou a vela é o mesmo que deixou o seu sinal neste ferro. 

E Loredano mostrou ao aventureiro a sua faca, cuja ponta estava tinta de sangue ainda liquido. 

— Há aqui então um inimigo?... 

— Decerto; os amigos não precisam ocultar-se. 

Nisto ouviram um rumor no telhado, e um morcego passou agitando lentamente as grandes asas: estava ferido. 

— Eis o inimigo!... exclamou Martim rindo-se. 

— É verdade, respondeu Loredano no mesmo tom; confesso que já tive medo de um morcego. 

Tranqüilos a respeito do incidente que os havia demorado, os dois entraram na cozinha, e daí por uma brecha estreita praticada na parede penetraram no interior da casa há pouco habitada por D. Antônio de Mariz e sua família. 

Atravessaram parte do edifício e chegaram a uma varanda que tocava de um lado com o quarto de Cecília e do outro com o oratório e o gabinete de armas do fidalgo. 

Aí o aventureiro parou; e mostrando a Loredano a porta adufada de jacarandá, que dava entrada para o gabinete, disse-lhe: 

— Não é com duas razões que a deitaremos dentro! 

Loredano aproximou-se e reconheceu que a solidez e fortaleza da porta não lhe permitia a menor violência: todo o seu plano estava destruído. 

Contava durante a noite se introduzir furtivamente na sala, e assassinar a D. Antônio de Mariz, Aires Gomes e Álvaro antes que eles pudessem ser socorridos por seus companheiros, consumado o crime, estava senhor da casa. 

Como remover o obstáculo que lhe aparecia? A menor violência contra a porta despertaria a atenção de D. Antônio de Mariz e inutilizaria todo o seu projeto. 

Enquanto refletia nisso, os seus olhos caíram sobre uma estreita fresta que havia no alto da parede do oratório, e que servia mais para dar ar do que luz. 

Por esta abertura o italiano conheceu que aquela parte da parede era singela, e feita de um só tijolo; com efeito o oratório tinha sido outrora um corredor largo que ia da varanda à sala, e que fora separado por uma ligeira divisão. 

Loredano mediu a parede de alto a baixo, e acenou ao seu companheiro. 

— É por aqui que havemos de entrar, disse ele apontando para a parede. 

— Como? A menos de não ser um mosquito para passar por aquela fresta! 

— Esta parede assenta sobre uma viga; tirada ela, está aberto o caminho!

— Entendo. 

— Antes que possam tomar a si do susto, teremos acabado. 

O aventureiro quebrou com a ponta da faca o reboco da parede e descobriu a viga que lhe servia de alicerce. 

— Então? 

— Não há dúvida. Daqui a duas horas dou-vos isto pronto. 

Martim Vaz, depois da morte de Rui Soeiro e Bento Simões, tinha-se tornado o braço direito de Loredano; era o único a quem o italiano confiara o seu segredo, oculto para os outros em quem receava ainda a influência de D. Antônio de Mariz. 

O italiano deixou o aventureiro no seu trabalho e voltou pelo mesmo caminho; chegando à cozinha, sentiu-se sufocado por uma fumaça espessa que enchia todo o alpendre. Os aventureiros acordados de repente blasfemavam conta o autor de semelhante lembrança. 

Quando Loredano no meio deles procurava indagar a causa do que sucedia, João Feio apareceu na entrada do alpendre. 

Havia na sua fisionomia uma expressão terrível de cólera e ao mesmo tempo de espanto; de um salto aproximou-se do italiano e chegando-lhe a boca ao ouvido disse: 

— Renegado e sacrílego, dou-te uma hora para ires entregar-te a D. Antônio de Mariz, e obter dele o nosso perdão e o teu castigo. Se o não fizeres dentro desse tempo, é comigo que te hás de avir. 

O italiano fez um movimento de raiva; mas conteve-se: 

— Amigo, o sereno transtornou-vos o juízo; ide deitar-vos. Boa noite, ou antes bom dia! 

A alvorada despontava no horizonte.  


XI 

O FRADE 

 

Saindo do quarto de Cecília Peri tomara pelo corredor que comunicava com o interior do edifício. 

O índio, a cuja perspicácia nada escapava do que se passava no interior da casa, por mais insignificante que fosse, havia percebido o plano de Loredano desde a primeira pancada dada para a abertura da brecha. 

(continua...)

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