Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— E portanto?... perguntou o negociante apertando violentamente as mãos.
— E, portanto, tudo está acabado...não há mais esperança possível!...
Hugo de Mendonça desabafou um gemido surdo e doloroso.
— E de hoje a três dias, senhor, temos de pagar uma letra na importância de treze contos de réis.
— Oh!...
— E de hoje a três meses uma segunda de quinze contos de réis.
— Félix!...
— E, enfim, de hoje a seis meses ainda uma terceira importando em dezoito contos de réis.
— Que todas três perfazem a quantia de quarenta e seis contos de réis!... disse tremendo Hugo de Mendonça, que estupidamente somara pelos dedos a dívida inesperada.
— É verdade, senhor.
— Sim... ainda quarenta e seis contos de réis que devem ser pagos no mesmo tempo em que se virá pedir-me outro tanto!...
— Era por isso que eu julgava esta desgraça inevitável!...
— Mas há, Sr. Félix, disse Hugo afetando um tom improvisadamente polido; há em tudo isto um lado obscuro... ininteligível!... nenhum administrador ocultou assim por tanto tempo negócios de tal importância ao dono da casa.
— Sr. Hugo de Mendonça, respondeu Félix empalidecendo involuntariamente, eu tenho e trago comigo documentos que esclarecem bastante o meu proceder; por eles se pode ver em que tempo fui contrair essa dívida na mesma casa que, com a que eu administrava, se ia de sociedade empenhar na fatal empresa; neles estão marcados, com a mesma data das letras que assinei, todos e ainda os mais minuciosos esclarecimentos a respeito das embarcações enviadas à costa da África. E de mais, senhor, conto a meu favor honroso procedimento de longos anos de serviço!... ninguém poderá fazer-me a injustiça de crer que enriqueço, fazendo a desgraça da sua casa!...
— Não se lhe disse isso, senhor, tornou Hugo; mas eu creio que no estado em que me vejo, deve-se-me tolerar uma queixa!
— Oh! perdão! perdão, Sr. Hugo de Mendonça!
— Está bem; está bem, Félix... deixa-me os papéis que me sentenciam a miséria.
— Ei-los aqui, senhor.
— Félix entregou a Hugo de Mendonça um pequeno maço de papéis, e alguns momentos depois retirou-se abatido e triste, como viera.
O negociante acompanhou com vistas perscrutadoras o seu guarda-livros até vê-lo desaparecer.
No pensamento de Hugo desenhava-se, ao pé da lembrança de seu infortúnio, uma dúvida que o fazia vacilar muito.
A história, que lhe contara Félix, tinha um não sei quê de fabuloso... seria Hugo vítima de uma trama infernal?... deveria o seu guarda-livros levantar-se rico e feliz sobre a sua miséria?... Mas, ao mesmo tempo que tais idéias surgiam-lhe na alma, Hugo lembrava-se de que Félix havia sido um caixeiro exemplar por sua honra e fidelidade; e a vida inteira do mancebo sem nenhuma mancha, sem a mais leve nódoa, fazia estremecer o negociante arruinado diante da imagem da calúnia.
Enfim, ele começou a examinar os papéis; tudo estava em ordem... tudo cuidadosa e miudamente documentado... e ainda um novo golpe vinha cair sobre Hugo de Mendonça; ele era devedor de grande quantia ao mesmo homem, que, poucos dias antes, lhe viera pedir a mão de sua filha, e fora por ela não aceito!...
Horas terríveis se passaram então...
Só, sem nenhum objeto que o distraísse, Hugo de Mendonça examinou os seus livros, as suas contas, os seus papéis; pensou em tudo... lembrou-se de sua mãe e de sua filha; e, quando ao voltar a página de um livro, ou ao combinar um novo pensamento, sentia entrever uma esperança; arquejava imediatamente depois; porque nessa mesma página do livro, e na reflexão desse mesmo pensamento, ele esbarrava sempre com a idéia fria, horrível, geladora — impossível!... Impossível! — palavra fatal, que na vida moral do homem significa o perdimento de toda a esperança... isto é, a morte do coração!... noite perpétua e escuríssima ainda no meio dos mais belos dias!...
Oh! o negociante hábil e honrado, que sente desmoronar-se sua casa, apesar de seus desesperados esforços... que não tem mais uma única probabilidade a seu favor, uma simples e fraca tábua de salvação a que se agarre, sofre muito... muito... terrivelmente... parece que não é possível sofrer mais; e, todavia, Hugo era despedaçado ainda por dobradas angústias; porque Hugo era pai...
Quando ele se lembrava de sua filha, o que sucedia a todos os instantes; quando sentia o ruído de suas pisadas... quando ouvia o som de sua voz doce e meiga, e pensava que ela tão linda, tão mimosa, tão acostumada aos regalos que se gozam no seio da abundância, ia cair nos emagrecidos braços da pobreza, experimentar privações, e...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.