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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Menos a figura, que essa é marca de Judas.

- Com efeito, é antipático, mas também não é tanto assim... Repare bem e verá.

- Não. Tenho medo. Aquela cara seria capaz de me por doente se eu a fitasse.

A atitude do Aguiar ao lado da prima continuava a ser a de um seu parente chegado e amigo da casa; Branca, todavia, ao conversar com ele, sentiu por várias vezes orçar-lhe pelo pudor as antenas de uma estranha intenção, que ela procurava não compreender e contra a qual se retraía toda. Mas o sedutor nem por isso perdia as esperanças, e, sempre com o seu sistema artificioso, ia empregando todos os meios de insinuar-se-lhe no ânimo, até que chegasse uma boa ocasião para a empolgar.

A ocasião, porém, não queria apresentar-se, e ele teria talvez precipitado os acontecimentos, se o acaso não fosse ao seu encontro, avivando-lhe a coragem e fazendo--lhe antever um desfecho ainda mais rápido do que esperava para a sua campanha.

Aguiar estava muito ao corrente das pretensões jornalísticas de Teobaldo e, melhor ainda, sabia em que pé caminhavam as intimidades deste com a senhora do conselheiro; de sorte que, um belo dia, ouvindo Branca teimar que o marido tinha de passar a noite em importante conferência comercial com alguns amigos, ele sorriu e disse:

- E o que perderia a prima se eu lhe provasse o contrário?

- Perderia mais uma ilusão a respeito de meu marido, respondeu ela. - Até aqui ainda não o apanhei mentindo, e confesso que o julgo incapaz de tamanha baixeza.

- E se eu provasse que ele, em vez de passar a noite nessa fantástica conferência, estará por esse tempo aos pés da mulher do conselheiro?...

- Creio que ainda assim eu não acreditaria.

- E se as provas fossem irrecusáveis?

- Nunca perdoaria a ele semelhante infâmia.

- E jura que não fará o mesmo a meu respeito, se eu provar o que disse?

- Pode estar tranqüilo por esse lado, porque nós, as mulheres, só condenamos os atos maus e as faltas da pessoa que amamos. Em nós o ódio é sempre o avesso do amor e só aparece quando este se esconde; o nosso coração é uma capa de duas vistas, cujos lados não podemos usar ao mesmo tempo: ou bem que amamos, ou bem que odiamos.

- Quem me dera então ser odiado pela prima...

Branca sentiu o roçar das tais antenas e tratou logo de cortar a conversa, retirando-se para o seu quarto, a pretexto de sentir-se indisposta.

Aguiar ficou na sala, mas a denúncia dele acompanhou-a, grudando-se-lhe ao coração com tanta insistência, que afinal já a oprimia.

- Um mentiroso! pensava ela, deixando-se cair sobre o divã.

E vieram os soluços.

- Mentir, enganar-me, trair-me como o mais baixo dos homens não faria com sua mulher!... Oh! isso não! Isso já é demais! Isso já não é uma fraqueza, é uma vilania e uma perversidade! Se ele está farto de mim, se não me pode suportar, por que então não fala com franqueza? por que não confessa tudo dignamente? por que me traz nesta dúvida ridícula e mais dolorosa do que a pior das evidências?...

E ainda chorava sobre estes raciocínios quando Teobaldo chegou à tarde. Ela disfarçou as suas lágrimas, acompanhou-o ao jantar, depois conversaram juntos, como de costume, debaixo de um caramanchão que havia na chácara e, só à noite, ao vê-lo já pronto para sair, perguntou-lhe com os braços em volta do pescoço dele:

- Vais sempre à tal reunião?

- Vou, e creio que me demorarei alguma coisa; mas fica descansada, que não irei muito além da meia-noite.

E beijou-a na testa e teria desaparecido logo, se a mulher não o prendesse com mais força.

Ele estranhou:

- Então! disse. Creio que não vou empreender alguma viagem aos pólos!

A esposa tomou coragem e interrogou-o abertamente:

- Quero que me digas uma coisa, mas não mintas! Fala com franqueza.

- Não te compreendo, filha.

- Dize-me: onde vai tu agora?

- Oh! estou farto de repetir! E estalando as sílabas: - Vou a uma reunião comercial, que tem hoje de deliberar sobre um sindicato, apresentado ao governo, pedindo privilégio para o fornecimento de certos materiais de guerra que tencionamos mandar ao Paraguai. Oh! - Jura! Dá tua palavra de honra!

- Ora essa!

- Então não acredito.

- Paciência!

- E vejo que as minhas desconfianças têm razão de ser...

- Desconfianças?

- Sim. Não acredito na tua reunião.

- E com que direito?

- Com o direito de quem tem ciúmes.

- Ciúmes, tu?

- Eu mesma.

- E duvidas de mim?

- Só não duvidarei se renunciares a essa tal reunião.

- Não posso.

- Fica. Peço-te.

- É impossível! Teria um grande prejuízo!

- Fica Teobaldo.

(continua...)

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