Por Aluísio Azevedo (1897)
— E há muitos colégios em Pernambuco?
— Mau! disse Gustavo consigo, depois de responder alto que sim.
— O ensino é muito religioso?
— Sim, minha senhora.
— Pagam bem às professoras?
— Regularmente, minha senhora.
— E o clima, que tal é?
— Quente!
— E a alimentação?
— Comum!
— E o povo?
— Bom!
— Dizem que desordeiro!.
— Histórias!
— E a cidade, é divertida?
— Nem sempre!
— Há passeios públicos?
— E teatros também, bailes, cafés, bilhares, há de tudo! Dançarinas de cancã e pândegas carnavalescas!
— Ah! exclamou a religiosa com um gesto de pudor.
E só abriu de novo a boca, para inquirir:
— O senhor sabe quem tenha para alugar uma rapariga que entenda de cozinha?...
— Não, minha senhora.
— Se souber, é favor mandála cá
— Pois não, minha senhora.
— Quanto ao senhor, não o podemos aceitar, porque só admitimos professores eclesiásticos de reconhecida virtude...
— Então, tenha a bondade de darme as suas ordens...
— Deus o ajude!
E as religiosas viraram de bordo, depois de uma cortesia. Gustavo ganhou a porta, mas na ocasião de sair, voltou o rosto, e seu olhar encontrou no caminho o da rapariga bonita, que lá do extremo oposto da sala lhe atirou um sorriso franco e já de joelhos levantados.
No corredor estava a criada, à espera dele, para o conduzir à chácara.
Gustavo chegou afinal à rua.
— Apre! exclamou; que francesa cacete, mas que linda menina!...
E à medida que ele, a retroceder lentamente pela praia de Botafogo, se afastava do colégio das irmãs de caridade, a sua imaginação, moça e fogosa, voltava para lá, a galope.
E a endiabrada ia saltando grades, atravessando quartos, até chegar à perfumada cela da linda religiosa de olhos meigos. Encontroua sozinha, a rezar no seu oratório. O grosseiro burel do hábito não permitia que se lhe suspeitasse o desenho voluptuoso das formas, sumialhe o corpo, deixando permanecer em evidência apenas o rosto angelical, a que as abas da touca de linho branco serviam de asas de querubim.
— Como eu te amo! dizia Gustavo no seu sonho, a beijar imaginariamente aqueles dois belos olhos castanhos, que se lhe quedavam gravados na alma com o sorriso com que se despediram dele.
E depois, num amor ideal, religioso, etéreo, seu espírito, abraçado ao dela, voava pelo espaço afora, entre nuvens de incenso e coros celestiais, que lhe faziam a ambos tremer de gozo as asas entrecruzadas.
De repente, porém, uma circunstância o chamou à dura realidade da existência: era a necessidade absoluta de comer; tinha o estômago completamente vazio. Deu balanço às algibeiras, e daí a pouco, já instalado numa mesinha de mármore do café de Londres, fazia defronte do seu almoço de trezentos réis as seguintes reflexões:
— Como deve ser delicioso casarse. a gente com uma criatura daquelas! vêla sempre a seu lado, amála a todos os instantes, e viver só para ela, e só dela! Deve ser muito bom!... Tão bom, quanto é aborrecido almoçar café com leite e pão torrado, quando a alma nos está a reclamar, do fundo das entranhas, alegres bifes com batatas e um bom copo de vinho!...
Ao chegar à república, um dos seus companheiros o recebeu com esta frase:
— Ó Gustavo! queres ganhar uns cobres?...
— Pronto!
— Sabes desenhar, não é verdade?
— Mais que o Pedro Américo! Por quê?
— Pois se quiseres, vamos imediatamente à casa da minha lavadeira. Pediume ela que lhe arranjasse um desenhista para retratar o cadáver do marido. Servete a encomenda?
— E quanto estará disposta, essa providencial e ensaboadora viúva a pagar para que eu lhe imortalize o malogrado esposo?...
— Não sei... mas o que vier é dinheiro, e nós estamos a tinir.
— Pois mãos à obra! exclamou Gustavo alegremente.
E, depois de munirse da sua pasta e dos seus petrechos de desenho, saiu com o companheiro para a residência da tal lavadeira, cuja figura, como vamos ver, é aliás muito velha conhecida do leitor.
Era a primeira vez que Gustavo ia desenhar por dinheiro. Até aí seus trabalhos artísticos não passavam de exibições em família, no seio de parentes e íntimos amigos, que a uma voz proclamavam com igual entusiasmo o grande talento do menino; de sorte que o modo frio e quase desatencioso pelo qual o receberam em casa da lavadeira, doeulhe no coração como clamorosa injustiça ao seu indiscutível mérito.
Entretanto, ia aparando os lápis, preparando o papel e os esfuminhos; e afinal, tomando a sua pasta assentouse com esta sobre as coxas, defronte de um longo canapé de palhinha, onde estava o defunto, magro, estirado e duro, como se fora feito de sola.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.