Por José de Alencar (1872)
Em frente da jaqueira passava uma rua de mangueiras, por onde vinham Guida e Ricardo a par, em um silêncio que os embaraçava a ambos; mas nenhum queria rompê-lo com banalidades, receando afastar o momento da confidência e talvez impedi-lo.
Animou-se Ricardo afinal:
- Lembra-se do que me disse aqui nesta casa, há quase um mês, quando nos despedimos? Que seu romance acabava alegre.
- É verdade! respondeu Guida. Eu disse e...
A moça conteve-se, receando lhe escapasse o segredo das lágrimas que tinham orvalhado seu amor ao nascer. Ricardo esperou um instante, mas vendo que o silêncio ia outra vez envolvê-los, continuou:
- Pois o meu acabou triste, bem triste.
- Conte-me, disse Guida com bondade.
- Não vale a pena. Uma afeição de infância, que lutou anos contra a adversidade para ser traída e ludibriada no momento em que lhe sorria a esperança! Quem dá valor a estas futilidades do coração? concluiu o mancebo em tom amargo.
- Compreendo quanto deve doer a perda de uma ilusão, observou a moça.
- Não é a perda de uma ilusão, mas a ruína de minha vida inteira. O coração está morto; é uma terra sáfara onde não brotará nunca mais a flor de uma afeição. E é esta a maior felicidade que Deus me pode conceder ainda neste mundo! Volveu Guida um olhar tímido e queixoso.
- Por quê?
- Amar outra vez? Seria martírio incessante. Não me animaria jamais a oferecer àquela a quem eu amasse os destroços de uma vida despedaçada pela traição, os bocejos de uma alma devorada pela dúvida. Oh! não! Se isso acontecesse por minha desgraça, eu havia de adorá-la em silêncio, no mais recôndito de minha consciência, quando não conseguisse arrancar do coração esse espinho doloroso.
Com a fronte inclinada e o seio palpitante, escutava Guida as palavras de Ricardo, que as proferia com o olhar vago, receando pousá-lo no semblante da moça. Timidamente observou:
- Não conheço os mistérios do coração. Mas penso que não pode haver maior júbilo do que seja esse de reviver um coração morto, de apagar um passado triste, e criar para aquele a quem se... estima, uma nova existência!
- Quantos encontraram no mundo um anjo como esse? perguntou Ricardo.
Guida não respondeu.
- Quando recebi a carta, que deu o golpe à minha vida, a princípio não pude entender. Pensei estar louco. Li e reli; aquilo excedia minha compreensão. Enfim a certeza penetrou-me como um raio, e senti-me como arremessado do alto de um rochedo, que me dilacerara a alma. Reneguei tudo quanto respeitava; descri das coisas mais santas; cheguei a duvidar de minha mãe!... Era a vertigem; a dor veio depois, e atroz. Carecia de um coração amigo, com quem desabafasse. Aqui só tinha Fábio; mas com ele era profanar a minha desgraça. Lembrei-me da senhora. Talvez não devesse; mas acreditei que me havia de compreender.
- Não se enagnou.
- E, não sei por quê, tinha um pressentimento de que isso me havia de fazer bem: e fez. Estas poucas palavras que trocamos restituíram a calma a meu espírito. Sentia vacilar-me a razão a modo de ébrio; parecia-me que a consciência faltava-me, como a terra embaixo dos pés; e agora estou outra vez seguro de mim; perdi as ilusões e as crenças, mas conservo a possessão do eu; já não receio que uma paixão ou um vício me arrebate na correnteza como às alforrecas, que o mar lança à praia.
- Mostre-me a carta! murmurou Guida.
- Aqui a tem; eu a trouxe pensando que desejasse vê-la.
Recebeu Guida o papel com a mão trêmula, e procurou o abrigo de uma mangueira, cujo grosso tronco a escondia, para ler sem despertar a curiosidade da mestra. Ricardo voltou-se para não vexá-la.
Estava a moça comovida e palpitante. Aquele momento ia decidir de seu destino; e era preciso que ela tivesse ainda uma vez a energia de curvar a fortuna a seu império, e vencer ela mesma, de iniciativa própria, os obstáculos. Sua alma superior compreendia agora o assomo confuso, obscuro, travado de hesitações e arrojos, que desde a véspera impelia Ricardo para ela, sôfrego de abrir-lhe o coração. O fenômeno que o mancebo não podia bem discernir em sua própria consciência, ela o penetrava com a luz pura de seu nobre coração.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.