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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— D. Flor, minha filha, a senhora chegou à idade de tomar estado; e nossa obrigação, era procurar-lhe um marido, digno por suas prendas de merecer aquela a quem mais prezamos no mundo. Lembrámo-nos de seu primo Leandro Barbalho, do Ouricurí, filho do falecido Cosme Barbalho, homem de prol, a quem o filho não desmentiu nas obras: 

— Aceito; meu pai; basta ser de sua escolha, para que eu o tenha no melhor conceito. 

Campelo comunicou à filha que nesse mesmo dia despachara um portador com carta ao Leandro Barbalho, o qual breve estaria na Oiticica, e agradando a D. Flor, como era de esperar, se trataria logo das bodas. 

O que não disse o capitão-mór fo o motivo de tamanha pressa. Não lhe saía da lembrança o dito de Fragoso; e receoso de que pela intercessão de algum santo, ou por artes ocultas, conseguisse o despeitado mancebo abrandar-lhe o ânimo, pensou que o melhor esconjuro contra êsse malefício era casar quanto antes a filha. 

D. Flor, que outrora assustava-se com a idéia do casamento, aceitou-a nessa ocasião com um modo pressuroso que não lhe era habitual. Porventura entrevia ela na sua aliança conjugal, um apôio para a resolução que tomara, e da qual ainda receava desviar-se? 

À noite, pouco antes do toque de recolher, chegaram à Oiticica dois viajantes: uma dama que trajava de luto, ajoelhou-se aos pés do potentado. 

— Sou uma desventurada, que vem pedir ao sr. capitão-mór Campelo, como pai dos pobres e a Providência dêstes sertões, agasalho e proteção contra seus perseguidores. 

— Agasalho terá, que a ninguém se nega na oiticica; proteção, a darei se a merecer; mas primeiro diga para o que a pede, mulher! 

— É tarde, e eu não quero pagar com incômodo da família a hospitalidade que vossa senhoria me concede. Se o sr. capitão-mór dá licença, eu deixarei para amanhã relatar-lhe minhas desgraças. 

— Amanhã a ouviremos. 

D. Genoveva já tinha dado ordem para preparar-se um aposento, no qual foi ela própria, com Flor, instalar a dama, que lhes captara as simpatias, não só por sua desventura, como por seu modo, ao mesmo tempo digno e modesto. 

Quando a desconhecida ergueu o crepe que a velava de dó, sua beleza deslumbrante produziu nas duas damas um movimento de ingênua admiração. Não se recordavam de ter visto semblante tão formoso. Flor era aos olhos da mãe o tipo da graça e da gentileza; mas não tinha a fascinação que derramavam os olhos negros e aveludados da desconhecida. 

Soube então D. Genoveva que sua hóspede chamava-se Águeda, e era viúva. Como, porém, com a lembrança recente de seu infortúnio desatasse em pranto, a fazendeira depois de a consolar, retirou-se para não perturbar-lhe o repouso de que devia carecer. 

No outro dia, logo pela manhã, veio Águeda à presença do capitão-mór, trazida por D. Genoveva, a qual a animava com a esperança de obter a proteção que viera solicitar do dono da Oiticica. 

— Diga o seu agravo, mulher, e conte que lhe faremos justiça, determinou o capitão-mór com a gravidade de um desembargador daquele tempo, que os de hoje são mais gaiteiros. 

— Com a justiça infalível do sr. capitão-mór conto eu, que a sua fama corre todo êste sertão, e não há quem não a conheça e louve e respeite, pois nunca faltou ao pobre e desvalido; e assim não abandonará esta mísera viúva, que vivia afortunada e na abastança, mas agora aquí está a seus pés, desgraçada, sem marido, sem abrigo, na maior penúria, e tudo por quê? Só porque na sua casa venerava-se acima de tudo o nome do capitão-mór Gonçalo Pires Campelo. 

— Que diz, mulher? exclamou o dono da Oiticica com um estremeção que fez estalar a poltrona. 

— É a verdade, sr. capitão-mór. Vossa senhoria talvez não se lembre de meu marido, o Tomaz Nogueira? 

— O Tomaz Nogueira? repetiu o capitão-mór, interrogando a memória.

— Da Barbalha, acrescentou a viúva. 

O fazendeiro consultou com o olhar a D. Genoveva, ao capelão e ao ajudante, que eram os três arquivos ou canhenhos dos fastos de sua vida; mas nenhum recordava-se do nome pronunciado pela viúva. 

— Meu marido conheceu o sr. capitão-mór Campelo no Icó, de vista, que de fama já o conhecia desde pequeno; e tal era a veneração que tinha por vossa senhoria que muitas vezes me dizia: «Olha, Águeda, se não fosse minha mãe estar já tão velhinha e não querer por coisa alguma sair da Barbalha, com certeza mudava-me para o Quixeramobim só para ter o gôsto de servir ao capitão-mór Campelo. Aquilo é que é homem! El-rei escreve a êle todos os anos com muitas partes para agradá-lo, porque tem mêdo que o capitão-mór não tome para si todo o sertão, com esta capitania do Ceará e mais a de Pernambuco. Que isto é só êle querer. El-rei bem sabe». E era uma vontade tão grande, que estava sempre a repetir. 

(continua...)

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