Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Ele portanto não pode mais julgá-la ingrata e má: a sua história contou-lhe tudo.
A “Bela Órfã” levantou a cabeça, e com o rosto todo rubor de vergonha, exclamou ajuntando as mãos:
– Porém de hoje em diante julgar-me-á leviana... sem nobreza de sentimentos... sem modéstia... talvez mesmo sem este pudor que agora me está queimando o rosto!
– Não, não, respondeu o velho; o sr. Cândido também sabe que se pode furtar papéis.
– Como?...
– Depois que ele acabou de ler a sua história escreveu quase toda a noite, e adormeceu sobre a mesa onde escrevia. A tempestade desta manhã o despertou, e quando o pobre moço foi pôr em ordem os seus papéis, achou de menos um...
– Qual?
– O que ele tinha escrito depois de ler a sua história.
– E quem o furtou?...
– A velha Irias, senhora.
– Oh! mas com que fim?...
– Para pagar-me o trabalho de lhe haver furtado a sua história.
– Ah! Sr. Rodrigues...
– Nada de repreensões! disse o velho interrompendo Celina; a senhora e aquele mancebo são meus filhos... eu amo a ambos, e quero que ambos se amem.
A voz do velho Rodrigues teve naquele momento um não sei quê de tão doce e tão solene, que a “Bela Órfã” abaixou a cabeça e ficou em silêncio por algum tempo.
Finalmente, não se achando com ânimo de repreender o guarda-portão, Celina contentou-se com dizer em voz muito baixa:
– Mas agora... a minha história... eu a quero.
– Eis o que pude obter... disse o velho tirando uma folha de papel do bolso, e entregando-a a Celina.
A moça recebeu automaticamente o que lhe dava Rodrigues, e viu que logo depois o bom velho se retirava como chegara, com passos vagarosos, mas com semblante sossegado e prazenteiro.
– Os meus papéis!... a minha história!... exclamou Celina logo que se viu só.
E abrindo o que lhe deixara o velho Rodrigues, de repente soltou um pequeno e abafado grito de admiração.
Ficou muito tempo hesitando. Corou e empalideceu, e hesitou de novo muito tempo; mas, finalmente, leu.
A imaginação ardente de Cândido tinha produzido um canto arrebatado e cheio de fogo. A história do amor da “Bela Órfã” havia arrancado o coração do mancebo do abismo de profunda tristeza onde arquejava, e feito raiar em sua alma o belo sol da esperança com esses raios puros e brilhantes, mercê dos quais a vida do homem parece nadar em mar de luz, de magia, e de supremos gozos.
Os entes privilegiados em quem a natureza acendeu essa chama sagrada, a que se dá o nome de poesia, amam, cultivam o objeto de seus amores, aborrecem, e demonstram o seu aborrecimento de um modo especial, de um modo que é só deles e de seus irmãos no engenho. Os artistas e os poetas amam e vingam-se como nenhuns outros no mundo. Amam e vingam-se com a pena, com o pincel, no papel e no mármore... imortalizam seu amor e sua vingança.
Às vezes uma hora de fogo para esses homens é mais profícua do que um século para os outros.
Cândido tinha tido uma dessas horas felizes: derramara enchentes de poesia no cântico da esperança, e convertera em hinos de amor seu coração agradecido.
Celina havia começado a ler receosa e trêmula; pouco depois o fogo que animara o poeta foi ardendo também na alma da virgem, que finalmente cedendo aos impulsos da natureza, acabou por ler com paixão e entusiasmo os juramentos de amor daquele que ela amava tanto.
Quando a “Bela Órfã” chegou ao fim da última página, era já a hora do crepúsculo, hora voluptuosa e fantástica, em que não é dia nem noite, hora de sonhos e de quimeras certamente; sonhos e quimeras porém, que todas as realidades desta vida não podem pagar nunca.
Celina docemente recostada no banco de relva do caramanchão ficou meditando muito tempo. Não via mais os arbustos cobertos de flores, que tinha diante de si; não ouvia mais o ruído que fazia o favônio brincando com as flores. Estava vivendo no mundo encantado da imaginação; estava vendo a figura graciosa de Cândido, vibrando as cordas de sua harpa, e ouvindo sua voz harmoniosa e terna entoar o canto do poeta amoroso, como na noite de seus anos:
“Iguais são no fado que têm a cumprir,
“Iguais num mistério a bela e a flor;
“Se a flor tem perfume, que o prado embalsama,
“É délio perfume da bela o amor.”
Os olhos da bela moça ora se fitavam sobre um objeto, que ela então nem via, ora vagavam indiferentes e incertos... até que uma vez...
Celina fez um movimento e lançou os olhos sobre a janela do “Purgatóriotrigueiro”... a janela estava aberta, e junto dela um jovem belo e gracioso embebia suas vistas na encantadora figura da moça... era ele... era Cândido.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.