Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
O mancebo trazia no semblante a expressão de pungente dor; em seus olhos se estava lendo a vigília de uma noite inteira.
— Pois bem, meu Félix, disse Hugo forçando um sorriso; eu estou agourando-nos mal da
tua visita.
Félix fez um sinal afirmativo.
— É que temos novas dificuldades a vencer para sustentar-nos... empenhos novos... e quem sabe?... talvez uma grande desgraça.
O guarda-livros fez novo e igual movimento de cabeça; Hugo de Mendonça tornou-se, então, pálido, como ele.
— Almocemos primeiro, tornou depois de alguns minutos de silêncio; procuremos adquirir forças para assoberbar a tempestade.
Félix quis falar; porém, Hugo de Mendonça, já com muito sangue-frio, repetiu o mesmo conselho.
— Almocemos primeiro, meu amigo; há sempre tempo de sobra para o infortúnio.
Até à hora do almoço Hugo entreteve agradavelmente a Félix e as senhoras, com as quais se tinham ido ajuntar, em objetos indiferentes.
Finalmente, os dois se viram de novo a sós e defronte um do outro no mesmo gabinete. — Agora, meu Félix, disse Hugo de Mendonça, vamos ao que é mais sério e mais triste: que há de novo?... fala...
— Senhor... há uma desgraça... horrível!...
— Mas, enfim, sempre acharemos para salvar-nos algum meio, embora difícil...
— Senhor, disse o moço, o mal é muito grande... é enorme...
— Sem remédio?...
— Talvez... desgraçadamente, talvez sem remédio!
— Mas o que será isso, que por hora não compreendo!... eu me supunha ao fato de todos os meus negócios!...
Félix ficou frio como um cadáver; e sentiu que as palavras de Hugo de Mendonça retiniam cruelmente no fundo de seu coração.
— Félix, continuou o negociante, é preciso falar... vamos...
— Senhor, respondeu o guarda-livros; eu sempre mereci a mais completa confiança do senhor seu pai; e nunca dei motivo para perder a sua. Recebido e educado nesta casa, pobre órfão que eu era, eu vos olhava como meus pais, como vós me olháveis como vosso filho.
— Adiante... adiante...
— Não; tudo é preciso dizer; porque eu cometi um erro, a que se poderá chamar um abuso de confiança, pois que suas conseqüências foram desgraçadas, e que se diria uma grande prova de amizade e dedicação, se o seu resultado correspondesse aos meus desejos e esperanças!
— Basta de preâmbulos, Félix; eu estou ansioso por conhecer esse infortúnio, que tanto te abate.
— Eu o vou dizer; mas assegure-me primeiro, senhor, que eu tenho administrado a sua casa mais como um membro da família, mais como um filho, do que como um assalariado...
— Sim... todos te fazemos justiça: porém, vamos... vamos...
— Eu me explico: é, todavia, necessário partir de longe. Senhor, quando morreu seu pai, eu sabia dos negócios da casa mil vezes mais do que V. S.ª; perdoe-me... o Sr. Raul de Mendonça parecia estimá-lo pouco; e por isso o arredava sempre dos seus conselhos...
— Adiante... adiante...
— O senhor seu pai, poucos anos antes de morrer, se havia empenhado em negociações proibidas e perigosas; e, como tantos outros, sofreu reveses; o resultado foi deixar a casa nas difíceis circunstâncias em que passou a seu poder...
— Sabemos disso...
— Logo que depois da morte dele, a casa ficou debaixo da direção de V. S.ª; eu, recebendo amplos poderes para, em sua ausência, continuar com os negócios, recebi também ordens terminantes para pôr termo a essas empresas fatais e ilícitas...
— Concluamos enfim...
— Alguns dias, porém, depois da sua partida para o campo, a firma de seu pai me foi apresentada... havia uma promessa, uma obrigação dele, contando-se com a qual despesas que se tinham feito, e navios preparados: era um enorme empenho... mas o que podia eu fazer?...
— É que eu ainda não compreendi bastante, Félix!...
— Senhor, eu quero dizer que fui obrigado a contrair novas e grandes dívidas para entrar na negociação com a parte a que se obrigara a casa, que eu estava administrando. — Mas eu tinha o direito de saber tudo, e tu o dever de nada me ocultar!...
— Eis o erro que choro, senhor! porém, eu esperava que desta vez a sorte nos seria menos adversa; e contava que poderia apresentar-me vitorioso, depois de ter salvado de todos os seus empenhos a casa que administrei.
— E então?...
— Calculando os lucros sobre uma perda de metade de nossas embarcações, ainda assim teríamos vencido muito...
— E então?... e então?... e então?
— Oh! há três meses que se têm ido quebrando contra meu coração uma por uma todas as probabilidades que a nosso favor eu tinha!... cada notícia importava sempre uma desgraça!... a primeira, a segunda, a terceira, todas as embarcações perdidas... tomadas!... só nos restava a última... a última, que era também a derradeira tábua de salvação para nós; pois bem! ontem a notícia chegou... perdida! tomada, como as outras!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.