Por Lima Barreto (1911)
Foi preciso que o intérprete oficioso dissesse porque ele não entendeu bem o meu — latin — francês e fiquei admirado que um funcionário neolatino não conhecesse nem uma palavra da língua de que se originara a sua. O policial continuava com as suas desconfianças e ainda objetou:
— É uma língua estrangeira. Devia estar traduzida para a nossa, por um tradutor público juramentado.
Quando soube da sua objeção, quase me desmanchei numa gargalhada.
Onde é que este homem ia encontrar um tradutor público juramentado para o latim? pensei eu.
O homem esteve a olhar-me durante alguns minutos; considerou-me bem a fisionomia, a roupa e ainda fez:
— Então o senhor não é “cáften” nem anarquista?
Tendo conhecimento de sua pergunta pelo intérprete, protestei que não, e creio que ele ficou certo da sinceridade das minhas palavras, pois me deixou desembarcar.
Fui para a Hospedaria dos Imigrantes, e dentro de uma semana estava colocado num núcleo colonial de um Estado do Sul.
Eu tinha os melhores propósitos de trabalho honesto e logo me pus a trabalhar com afinco. Deram-me ferramentas, sementes e um lote de terras duras e compactas.
Comecei a derrubar o mato, construi antes uma palhoça e, aos poucos, ergui uma casa de madeira, feita ao jeito das “isbas” russas.
A colônia era ocupada por famílias russas e polacas e, enquanto os meus trabalhos de instalação não se acabaram, não travei relações com ninguém.
Ao fim de dois meses, tinha já onde dormir sem temer os temporais; mas, as minhas mãos estavam em mísero estado, se bem que o meu corpo tivesse ganhado mais saúde e mais força.
Aos administradores da colônia via pouco e evitava mesmo vê-los, porque eram arrogantes e intratáveis; mas travei relações com o intérprete que muito me orientou na vida brasileira.
Este, de fato, falava russo e tinha certa instrução. Nunca me disse os antecedentes da sua vida, mas havia nele certos tiques, certos gestos, que me pareceu ter o seu corpo sofrido trabalhos forçados.
Quando soube que tinha um grau universitário, disse-me logo:
— És tolo, Bogoloff, devias ter-te feito tratar de doutor.
— De que serve isso?
— Aqui, muito! No Brasil, é um título que dá todos os direitos, toda a consideração, mesmo quando se está na prisão. Se te fizesses chamar de doutor, terias um lote melhor, melhores ferramentas e sementes. Louro, doutor e estrangeiro, ias longe!
— Ora bolas! Para que distinções, se eu me quero anular? Se quero ser um simples cultivador?
— Cultivador? Isto é bom em outras terras que se prestam a culturas remuneradoras. As daqui são horrorosas e só dão bem aipim ou mandioca e batata doce. Dentro em breve, estarás desanimado. Vais ver.
Desprezando as amargas profecias do intérprete da colônia, pus-me com decisão a trabalhar a terra. Plantei dois hectares de milho e fiz uma horta em que plantei couves, nabos, repolhos.
Esperei que nascesse e frutificasse o milho. De fato, veio rapidamente, mas as espigas, quando as colhi. Estavam meio roídas pelas lagartas; a horta foi um pouco melhor, mas, assim mesmo, a “rosca” e o piolho estragaram-me grande parte da minha obra.
Tentei outras culturas, a do trigo, a da batata inglesa, mas não deram coisa que prestasse e voltei ao milho logo que o tempo se me apareceu propício.
A lagarta, porém, não deixa a sociedade que fizera comigo e tirava do meu trabalho uma porcentagem bem forte. Entretanto, eu tinha que pagar o meu lote e as ferramentas. Com tão magras e pouco remuneradoras culturas, fi-lo com sacrifícios sobre humanos. Quer dizer que eu, no “El-Dorado”, continuava a viver da mesma forma atroz que no inferno de Odessa.
Deite-me com todo o afinco à cultura da batata doce, do aipim e da abóbora, e nisso imitei os naturais que não faziam senão pedir à terra esses produtos quase espontâneos e respeitados pelos insetos daninhos.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.