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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Verificou o que conseguira economizar depois da moléstia de D. Margarida, calculou ao certo o produto líquido do colégio e, tomando a resolução de reduzir ainda mais as suas despesas e largar de mão por algum tempo a sua história do Brasil, resolveu afinal assinar o contrato.

Tudo isso fez ele sem o menor entusiasmo, com uma inalterável confiança nos seus esforços.

E desde então com efeito não descansou um segundo: dispensou alguns professores, cujo serviço tomou a seu cargo e começou a lecionar por dia nada menos do que oito aulas, inclusive a de música.

Pois, ainda assim, descobria tempo para fazer a escrituração da casa e, lá uma vez por outra, para adiantar uma página à sua querida história do Brasil.

Embalde protestava-lhe o corpo contra tanto excesso de trabalho. Coruja não se deixava vencer e reagia energicamente; é verdade que, ao chegar a noite, já se não podia ter nas pernas e só com muito sacrifício agüentava-se acordado até às onze horas, trabalhando ainda; mas em compensação trazia agora o espírito mais tranqüilo a respeito do seu compromisso com Inez, a quem desposaria, mal visse o colégio desembaraçado.

A nova situação de André por qualquer forma animou a velha Margarida, que ultimamente se havia convertido para ele em um verdadeiro tormento.

- Ora, Deus queira que desta vez você desembuche, criatura! disse-lhe ela, quando o rapaz lhe levou a notícia. - Já não vem sem tempo!

- Ah! desta vez creio que ficará tudo realizado!... considerou André - É que as coisas, Sra. D. Margarida, nem sempre caminham à medida dos nossos desejos...

- Ora, seu Miranda, se você quisesse, há muito tempo que já teria dado um jeito ao negócio !.

- Mas para que fazer as coisas no ar? E muito melhor ir pelo seguro! Olhe, logo que eu liquide o meu débito com o Banco, posso casar sem receio, porque já terei certo o necessário para sustentar mulher e os filhos que vierem. O colégio, uma vez desembaraçado, dará perfeitamente para isso o talvez até para se por de parte alguma coisinha... Não acha a senhora, D. Margarida, que sempre é melhor assim, do que casarse a gente em um dia e já no outro estar arrependida?

A velha, em vez de responder às considerações de André, limitou-se a exclamar:

- Hei de ver este casamento pelas costas e ainda me parecerá um sonho!

- Agora há de vê-lo realizado!

- Com um ano de espera pelo menos... arriscou Inez. - Em um ano o mundo dá tantas voltas!...

E sua cara era tão feia e tão apoquentada com semelhantes palavras, que fazia desconfiar que as tais voltas do mundo haviam de ser por cima dela.

- O que não sei é se ele ainda deitará um ano ... considerou a velha, quando o Coruja a deixou com a filha. Acho-o agora tão não sei como!... O diabo do homem parece que fica mais feio de dia para dia!

- A mim, o que lhe acho, acrescentou a outra - é mais bodega do que nunca: já não se sabe de que cor é o paletó que ele trás no corpo, e o chapéu parece que está a se acabar aos nacos!

Tais considerações sobre o mau trajar do Coruja não eram privilégio exclusivo das duas senhoras; em casa de Teobaldo já todos haviam também notado a mesma coisa, sem que ninguém aliás se animasse a censurá-lo, porque bem sabiam a que ponto levava ele a economia depois de tomar o colégio à sua conta.

Mas se aí lhe perdoavam a penúria de roupa, o mesmo não sucedia nas outras partes, e o pobre Coruja ia ganhando fama de sumítico e miserável.

Comentavam amargamente aquela extrema restrição de despesas; acusavam-no de nunca ter sido visto a gastar um só vintém com pessoa alguma, e muita gente garantia que ele aferrolhava dinheiro.

Em verdade, não podia ser mais rigorosa a abstinência do Coruja, nem podia o seu tipo ser mais farandolesco e miserável do que era ultimamente; mas, também, quem o surpreendesse à noite no seu cubículo, depois de recolhido, ve-lo-ia tirar de uma gaveta diversos títulos do Banco e diversos maços de cem mil réis em papel, que ele contava e recontava com uma voluptuosidade de avarento; como, se à força de conferir o dinheiro, pretendesse engrossá-lo.

O Aguiar embirrava com ele progressivamente. Ao topá-lo em casa do amigo, tão maltrapilho e tão esquerdo de maneiras, torcia sempre o nariz e às vezes chegava a exprobrar à prima aquela relação.

- Também não sei, dizia, - como Teobaldo, que é aquele mesmo, conserva este tipo dentro de sua casa...

- São muito amigos, respondia Branca secamente.

- De acordo, mas, que diabo! semelhante figura é o bastante para desmoralizar uma casa... Parece um mendigo! um verdadeiro mendigo!

- É um homem honesto, afianço-lhe.

- Oh! nem podia deixar de ser! com tal aspecto ser honesto não é favor: ele tinha obrigação de ser, pelo menos, santo.

- E talvez meu primo acertasse. O Coruja tem coisas de um verdadeiro santo.

(continua...)

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