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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Sim, senhor, ou como simples empregado; estou numa situação da aceitar tu....

— Que matérias sabe o senhor?

— Para ensinar sei o português, francês, espanhol, aritmética e desenho.

— Nós precisamos justamente de um professor de espanhol; em breve vamos precisar de um de desenho e um substituto de português primário; o que aí está vai tratar­se em Barra Mansa...

O rosto de Gustavo tomou logo uma expressão mais animada; o velho, porém, o observava de alto a baixo, com gesto de desconfiança e desagrado.

— São justamente as matérias que poderei ensinar melhor. Meu pai era oriental e deu­me lições de espanhol desde muito cedo; no português também estou bem preparado, porque ultimamente tenho estudado com esperança de um concurso; quanto ao desenho, sei o suficiente para ensinar em colégio.

O velho, sentado comodamente em uma cadeira de braços, havia já apertado os olhos três ou quatro vezes, esticando os lábios, como quem medita; e depois, a esfregar as mãos nas coxas, perguntou:

— Trouxe consigo os seus atestados?...

— Que atestados?...

— É boa! de professor..

— Ah! Eu não tenho atestados... nunca fui professor... desejo justamente principiar agora...

— E olhe que não principia muito tarde!

E o velho, levantando­se resolutamente, convidou­o a sair com estas palavras:

— Pois, meu caro senhor, sinto muito não lhe ser agradável; mas... neste colégio só se admitem professores garantidos pela Instrução Pública.

— Mas, eu me submeto a exame, disse Gustavo, já também de pé; e se não estiver habilitado...

— Hei de pensar nisso! respondeu o diretor, sem mais procurar disfarçar a sua impaciência.

E fez um gesto com a mão aberta, o qual tanto podia significar "Passe bem!" como "Ponha­se a fresco!"

Gustavo saiu, sem dizer uma palavra; no corredor fez uma mesura.

— Viva! bocejou o velho, fechando a porta com estrondo.

O boêmio desceu as escadas furioso, mas sem desanimar, continuou a farejar trabalho pelos colégios. Uns não precisavam de professor; outros não o podiam admitir, porque ele era muito moço; outros não diziam a razão porque não queriam; outros voltaram à questão dos atestados, e todos o olhavam com a mesma desconfiança e o despediam com a mesma sem­cerimônia.

Ao meio­dia, Gustavo achava­se em Botafogo, defronte de um colégio de muito boa aparência.

Havia um homem na chácara; o rapaz disse, mesmo da rua, que desejava falar ao Sr. diretor.

— Não há diretor! respondeu secamente o homem.

— Este ao menos é original! pensou Gustavo, quase risonho.

— Então, com quem posso entender­me?...

— Com a diretora.

— Ah! É colégio de meninas!... Tenha a bondade de dizer à Sra. diretora que eu desejo falar­lhe.

O homem subiu uma escada de pedra, e pouco depois veio abrir o portão.

Que podia subir!

Uma mulher conduziu­o à primeira sala. Era um lugar decente, sério, rigorosamente mobiliado; nas alvas paredes havia finas gravuras representando assuntos religiosos.

Esperou cinco minutos. Depois abriu­se uma porta, e a mulher que o conduziu fê­lo entrar para outra sala. Achou­se então Gustavo defronte de três irmãs de caridade, dentre as quais a mais velha se adiantou para ele, com os olhos cravados no chão, as mãos engolidas pelas largas mangas do seu burel, e a cabeça toucada pelo característico e formidável lenço de linho engomado.

Gustavo vergou­se cortesmente e, por hábito social, estendeu a mão às religiosas, que logo se contraíram num escrúpulo freirático, rechupando mais os olhos e escondendo mais as mãos.

— V. V. Ex.as desculpem­me... balbuciou o moço, meio confuso; incomodeia­as, na persuasão de encontrar aqui o que fazer como professor...

— Ah! é professor?...

— Sim, minha senhora, respondeu ele, a reparar que uma das duas irmãs retropostas era bem bonita rapariga.

— É aqui mesmo da Corte ou é da província?... perguntou ainda a primeira, com um sotaque francês muito pronunciado.

— De Pernambuco, minha senhora.

E Gustavo, desta vez reparou que a bonita o observava debaixo dos cílios.

— Nunca tinha vindo ao Rio?...

— Nunca minha senhora.

E pensou consigo. Mas que olhos tem aquele diabinho!

— E tem gostado da Corte?...

— Nem por isso, minha senhora. Ainda estou desempregado.

E desta vez descobriu nos lábios da irmã dos lindos olhos a pontinha de um sorriso.

"Faço­me jardineiro neste colégio!" pensou ele, sob a influência dos olhos da rapariga.

— Mas... disse, procurando voltar ao principal assunto da sua visita; V. V. Ex.as precisam de mim...? — E sua província é bonita?... interrompeu a irmã curiosa, sempre a olhar para o chão.

— Sou suspeito para responder, minha senhora. Mas, como dizia... Acaso V. V. Ex.as precisam...?

(continua...)

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