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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

“Todos vós vos recordareis ainda do estado de vergonhosa e mesmo de criminosa indecência a que tinha chegado o belo templo da vossa venerável irmandade! Templo que, pertencendo a uma corporação de sacerdotes, devia primar entre outros administrados por seculares, principalmente quando a fervorosa piedade dos antigos irmãos fundadores o tinha dotado com um patrimônio suficiente para sua conservação e decência. Pois, bem: esse templo imundo e quase em ruínas, com o qual tinham acabado de gastar quase oito contos de réis, como se vê das contas do ano de 1852, nós vô-lo entregamos agora digno do culto etc.”

Falando da prata da igreja, diz o ex-provedor:

“É doloroso, senhores, o que sou obrigado a informar-vos a respeito do artigo prata. Quando tomamos posse desta administração, não encontramos nos armários da nossa igreja alguns objetos de prata, e entre esses duas lâmpadas que possuíamos. Achamos, sim, os inventários de 1851 para traz falsificados nesses artigos, e o que primitivamente parecia ter sido escrito – duas lâmpadas de prata – estava borrada ou escrito (emendado para) – duas almofadas de damasco: o roubo de pedaços e de peças de prata e outros objetos estragou-os de tal forma que, para poderem servir, foi preciso fazer-se uma despesa de novecentos e tantos mil-réis em consertos e algumas substituições de peças roubadas e indispensáveis. Fazendo esta exposição, senhores, mui longe estou de querer fazer pesar sobre meus irmãos que fizeram parte das mesas transatas qualquer desar na sua probidade e honradez. Não. Estou convencido que todo este deplorável acontecimento só proveio das facilidades com que tudo abandonavam para não se incomodarem muito.”

O arquivo da irmandade mostrava-se em espantosa confusão. A administração econômica, ruinosa e tristíssima. Tudo enfim indicava desmazelo, desprezo e incapacidade administrativa.

O Monsenhor Antônio Pedro dos Reis mostrou no triênio em que foi provedor o quanto podem uma dedicação vigilante, uma vontade firme, uma constância inabalável e a disposição decidida de bem-servir, sem atender a comprometimentos e desafeições.

O Monsenhor Antônio Pedro dos Reis foi como um novo fundador; ou pelo menos foi o restaurador da irmandade de S. Pedro.

A administração seguinte (de 1856 a 1859) sustentou todas as reformas da sua antecessora e prosseguiu no mesmo caminho, encetando novos trabalhos cujo resultado foi o brilhantismo com que hoje se mostra a irmandade, e a harmonia e decência que se observam nas cerimônias que se praticam.

Esta administração dotou a irmandade com um órgão novo, que mandou vir da Alemanha. Desterrou da igreja de S. Pedro a música profana, fazendo louvar o Senhor em sua casa com música religiosa. Como sinal de reconhecimento aos seus irmãos benfeitores, mandou colocar na sacristia e salões da igreja os seus retratos para perpetuar-lhes a memória. Determinou celebrar na igreja de S. Pedro, pela primeira vez, e em seguida em todos os anos, os mistérios da paixão e morte de N. S.

Tipo de ônibus, de fabricação francesa, usado no Rio de Janeiro em 1850

Lutando com uma dívida de 9:000$, tomada por três anos a juros de 10%, e com outra e enorme dívida de cera, que tinha necessariamente passado de administração em administração, conseguiu pagar a primeira e mais os juros, que subiam a 1:800$. Pagou ainda a segunda, que se tornara célebre. Comprou o novo órgão na importância de 6:000$. Fez grandes melhoramentos com a aquisição de paramentos novos, cortinas ricas para as portas e roupa branca para a sacristia. E entregou enfim a administração, deixando a irmandade sem dívidas.

Sem dúvida alguma, as administrações que têm de seguir-se a essa ilustrar-se-ão, prestando serviços de igual magnitude, como a atual o está fazendo.

O patrimônio especial da irmandade de S. Pedro consta atualmente do seguinte: cinqüenta e seis apólices de um conto de réis e duas de quatrocentos mil-réis, e oito moradas de casas, oue rendem

7:160$329.

Além deste patrimônio, a irmandade tem uma fonte de renda nas anuidades dos irmãos não remidos, e nas jóias dos novos irmãos e de certos mesários.

Adivinho que vos achais fatigados, e que me íeis pedir para terminar aqui este passeio.

Vou fazer-vos a vontade, anunciando-vos outro um pouco menos árido e um pouco mais divertido, na próxima ocasião.

III

A instituição do coro da irmandade de S. Pedro tem a data de 1764, e foi devido à piedade de Manuel Vieira dos Santos, um bom católico, que habitava em Minas Gerais, por detrás do morro do Rio do Peixe, termo da vila de Sabará.

Manuel Vieira meditava desde alguns anos criar na capitania das Minas uma colegiada para o serviço e louvor de Deus. Que série de dificuldades veio embaraçar a realização do seu piedoso intento nessa parte do Brasil, não estou no caso de apreciar. Certo é, porém, que, inabalável na sua idéia, conseguiu esse homem fazer efetuar na cidade de S.

Sebastião do Rio de Janeiro o que não lhe fora possível executar em Minas.

(continua...)

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