Por José de Alencar (1872)
Guida colocou o livro na estante, e afastando o banco com a ponta do pé, volveu os olhos para Ricardo. Encontrando os dele, sentiu expandir-se a alma, que veio abrir-se em flor num sorriso fagueiro.
Esperou ainda um momento e sentou-se. Debaixo de seus dedos mimosos cantaram as teclas a súplica maviosa do dueto final de Romeu, escrito por Vaccai:
“Vieni, ah! vieni,
Mio bene, mia speme; Fugiamo insiemi,
Amor ci condurra”.
Ricardo não ouviu as notas, como não vira o sorriso.
Vexado de que lhe surpreendesse a moça o olhar ansioso, dissimulara, com intenção de aproximar-se logo depois, como atraído pela música.
Com efeito assim fez, mas ao mesmo tempo que ele, chegava Clarinha, o Guimarães, e todo o enxame de adoradores cercava o piano, levando o advogado a arredar-se, o que aliás fez de bom grado.
Pouco depois era meia-noite. As famílias se retiravam; D. Paulina com a filha as foram acompanhar até o portão, como de costume, por fineza aos hóspedes e por passeio.
Guida, de braço com Mrs. Trowshy, aproximou-se de Ricardo:
- Como está a noite serena! disse a moça. Havemos de Ter uma bonita manhã para ir a Andaraí, Mrs. Trowshy.
- E a lição de harpa?
- Que tem isso?
Voltou-se para Ricardo:
- É verdade! Quando leva aqueles papéis à avozinha? Creio que ela precisa deles.
- Já devia ter ido... Talvez amanhã.
- Eu a prevenirei para esperá-lo.
Este curto diálogo passou desapercebido no meio do gorjeio das moças que se despediam.
XXXI
No dia seguinte, às onze horas e meia, chegou Ricardo no Andaraí.
Achou na sala de visitas D. Leonarda recostada no sofá; Guida sentada a seus pés na almofada desenhava à aquarela sobre uma mesinha de charão para divertir a avó; e Mrs. Trowshy fazia “frivolidade” ( frivolité).
Guida estava triste.
A efusão de alegria que tivera na véspera a ver Ricardo, quando já o sabia desobrigado da promessa que o separava dela, essa primeira expansão de sua alma desvanecera-se mais tarde, durante a vigília.
Como uma gota de fel, caiu-lhe do espírito no coração uma idéia, que a amargurou. O afã com que Ricardo aproximava-se dela, logo depois da decepção, e sem dar tempo à alma não já de esquecer, mas de acalmar-se, não estava revelando o plano de uma vingança ou de um cálculo sôfrego?
Esteve a não ir ao Andaraí; mas pensou que o melhor era não demorar essa crise de sua vida.
Viera; não com a alma cheia de enlevos e ternuras como a tinha na véspera quando tocava Romeu, porém no desencantamento de um coração que sente fanar-se morno bafo do aquilão, a primeira bonina, que apenas começava a florir.
Desculpou-se o advogado na demora da restituição dos papéis; elogiou a aquarela de Guida, o que levou a conversa para os desenhos de Ricardo e as recordações do verão passado na Tijuca. Falou-se da beleza das pitorescas montanhas, dos encantos de sítios tão aprazíveis; e uma doce tinta de saudade ressumbrava nessa conversa de passatempo.
Depois de um quarto de hora ou mais, vendo Ricardo que não havia mutação de cena, e perdendo a esperança de uma longa e íntima efusão, como ali tivera Guida com ele vinte dias antes, ergueu-se com intenção de sair.
- O senhor ainda não viu a chácara da avozinha? É muito bonita.
- Qual! disse a velha. Já foi, agora está maltratada.
- Quer dar um passeio? perguntou a moça.
- Com muito gosto! respondeu Ricardo.
- Vamos, Mrs. Trowshy.
A mestra estava pronta sempre para passear.
Querendo facilitar a Ricardo a entrevista, que ele desejava, e sentindo ao mesmo tempo vexame de achar-se de todo a sós com o mancebo, Guida escolhera o passeio, que lhe deixava toda a liberdade de movimentos para dissimular as emoções e interromper a conversa a propósito.
O bando de moleques disparou adiante, como um rebanho de cabritos, quando o soltam do redil pela manhã, e espalhou-se pela chácara, a pretexto de apanhar frutas para nhanhã Guida, mas realmente para as comerem eles e fazerem mil diabruras.
Mrs. Trowshy, que despedira da cancela pela rua afora, como bala de canhão, e lá se fora em passo de carabineiro inglês assaltando um reduto, depois de três voltas sentara-se esbaforida à sombra de uma jaqueira, a debulhar um cacho de uva para refrescar-se.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.