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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Arnaldo espiava o acampamento selvagem, à espreita de uma ocasião para encontrar-se com Anhamum. O rapaz tinha seu plano. Nisto Moirão levado pela curiosidade, afastou-se da casa mais do que devia, e foi empolgado pelos índios, que o levaram à ocara. 

Viu Arnaldo que o Moirão estava perdido, e arrastado por um impulso de seu coração generoso, cuidou em salvá-lo. Os Jucás entretidos com o prisioneiro, não sentiram que eram seguidos às ocultas. Assim conseguiu chegar o vaqueirinho à ocara, onde logo acudiu Anhamum, avisado pelos brados de seus guerreiros. 

Saltou-lhe Arnaldo em face, e apontando para o peito esquerdo do chefe, repetiu a palavra que êste pronunciara seis meses antes, na noite de sua evasão. 

— Coapara! 

Anhamum dirigiu ao rapaz um floreio de seu arco, saudação devida a um guerreiro ilustre; e depois uniu-se a êle, costa com costa, para significar-lhe a união em que estavam, o que era o mais estreito abraço da amizade. 

Seguiu-se depois o diálogo da hospitalidade. 

— Tu vieste? 

— Vim. 

— Sê benvindo ao campo de Anhamum, a quem salvaste. 

A êsse tempo já os índios tinham despido o Moirão e distribuído as várias peças do seu vestuário que foram imediatamente reduzidas a tiras para servirem de faixas e cintas guerreiras. 

Arnaldo exigiu de Anhamum duas coisas: primeiro, que êle não levantaria seu arco nunca mais contra os donos da Oiticica; segundo, a entrega do Aleixo Vargas. Anhamum preferia que o seu camarada lhe pedisse uma orelha, um ôlho, ou metade de seu sangue; mas não podia recusar nada ao seu salvador. 

Nesse mesmo dia o chefe dos Jucás levantou a taba e Arnaldo voltou à Oiticica conduzindo o vargas. O que êle não levou foi a roupa dêste, e o nosso amigo Moirão para fazer uma entrada decente teve de embrulhar-se em fôlhas de banana, o que deu-lhe ares de uma enorme moqueca. 

Depois dêstes acontecimentos, Arnaldo por mais de uma vez foi à taba dos Jucás, levantada à margem do rio a que êles deram o nome; e sua amizade com Anhamum estreitara-se ainda mais, com os mimos de armas que lhe fizera. 

O chefe dos Jucás dera-lhe um aseta de seu arco, em penhor de aliança. 

— Quando careceres do braço de Anhamum, envia-lhe esta seta, que êle correrá a defender-te. 

De dia em dia as relações entre os dois colaços foram afrouxando, à medida que Flor tornava-se moça. A juventude que prendia mais a donzela à sala, por outro lado arrojava mais o sertanejo para o deserto. 

Flor só o via de longe em longe; tratava-o, porém, com um modo afetuoso e muitas vezes, quando a ausência prolongava-se, ela o recebia com alguma demonstração mais expansiva, como sucedeu na sua volta do Recife. 

Eram estas as recordações que a donzela ainda repassava na memória, recostada à janela, no momento em que arnaldo a avistou. Depois vieram as reminiscências dos últimos tempos até aquela tarde, em que o sertanejo excedera-se a ponto de forçá-la quase a um ato violento. 

Tornando a si desta longa interrogação do passado, a donzela aterrou-se ante uma idéia que surgiu-lhe de chofre. Essa afeição que tinha a Arnaldo seria mais do que a simples amizade de uma irmã de criação por seu companheiro de infância? 

Não. Ela, a filha do capitão-mór Cmapelo, não podiaa ver em um vaqueiro outra coisa senão um agregado da fazenda, ao qual dispensava um quinhão da estima protetora, que repartia com seus bons servidores, como a Justa, a Filipa e outros. 

Daí em diante cumpria-lhe manter a distância que a separava do seu colaço, para que êste não a esquecesse outra vez, e de um modo tão grosseiro. Sentiu que havia de custar-lhe bastante envolver Arnaldo, a quem sempre distinguira com sua afabilidade, no mesmo trato frio e imperativo que usava com a gente da fazenda. Mas assim era preciso, e assim havia de ser. 

Nunca a sua proteção faltaria a Arnaldo. Todos os sacrifícios ela os faria, sendo necessário, para poupar-lhe um desgôsto, e auxiliá-lo nos trabalhos da vida. O que vedava-lhe o seu decôro, era a confiança e familiaridade, em que até alí havia consentido com tamanha imprudência. 

A resolução da donzela e o esfôrço que lhe tinha custado, refletiam-se em sua fisionomia severa e altiva, quando ao toque de ave-maria, ela saíu ao terreiro e foi beijar a mão dos pais. 

Arnaldo a seguira com os olhos cheios d’alma. A donzela ao voltar-se o avistara; mas desviou dele a vista, sem a menor perturbação ou sobressalto, com uma indiferença plácida e fria, que traspassou o coração do sertanejo. 

Adivinhou que Flor acabava de separar-se dele para sempre. 

Depois de Trindades, D. Genoveva chamou a filha e levou-a à presença do capitão-mór, que esperava sentado no canapé. 

(continua...)

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