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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Mas ela não contava com os recursos imensos de que dispunha essa inteligência vigorosa, que tinha ao seu serviço um braço forte, um corpo ágil, e uma destreza admirável; não sabia que o pensamento é a arma mais poderosa que Deus deu ao homem, e que com ela se abatem os inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força irresistível e providencial que manda ao espírito dominar a matéria. 

— Não te iludas; vais fazer um sacrifício inútil. Não é possível que um homem só vença tantos inimigos, ainda mesmo que esse homem seja Peri. 

— Tu verás! respondeu o índio com segurança. 

— E quem te dará força para lutar contra um poder tão grande?... 

— Quem?... Tu, senhora, tu só, respondeu o índio fitando nela o seu olhar brilhante. Cecília sorriu como devem sorrir os anjos. 

— Vai, disse ela, vai salvar-nos. Mas lembra-te que se tu morreres, Cecília não aceitará a vida que lhe deres. 

Peri ergueu-se. 

— O sol que se levantar amanhã será o último para todos os teus inimigos; Ceci poderá sorrir como dantes, e ficar alegre e contente. 

A voz do índio tornou-se trêmula; sentindo que não podia vencer a emoção atravessou rapidamente a sala e saiu. 

Chegando à esplanada Peri olhou as estrelas que começavam a apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a perder. 

Qual era o projeto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado tinha ele para contar com a destruição dos inimigos e a salvação de sua senhora? 

Fora difícil adivinhar; Peri guardava no fundo do coração esse segredo impenetrável, e nem a si mesmo o dizia com receio de trair-se, e de anular efeito, que esperava com uma confiança inabalável. 

Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudência para fulminá-los a todos como a cólera celeste, como o fogo de raio. 

Peri dirigiu-se ao jardim e entrou no quarto de Cecília então abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do fundo da casa ocupada pelos aventureiros revoltados. 

O quarto estava às escuras: mas a tênue claridade que entrava pela janela bastava ao índio para distinguir os objetos perfeitamente; a perfeição dos sentidos era um dom que os selvagens possuíam no mais alto grau. 

Ele tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecília lhe havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus ornatos de penas, sua faixa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar e lançou-os como um troféu sobre as suas armas. 

Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que foram juntar-se às armas e aos ornatos. 

Por algum tempo Peri contemplou com um sentimento de dor profunda esses despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime por Cecília, e de seu heroísmo admirável. 

Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua língua algumas dessas palavras que a alma manda aos lábios nos momentos supremos: 

— Arma de Peri, companheira e amiga, adeus! Teu senhor te abandona e te deixa: contigo ele venceria; contigo ninguém poderia vencê-lo. E ele quer ser vencido... 

O índio levou a mão ao coração: 

— Sim!... Peri, filho de Ararê, primeiro de sua tribo, forte entre os fortes, guerreiro goitacá, nunca vencido, vai sucumbir na guerra. A arma de Peri não pode ver seu senhor pedir a vida ao inimigo; o arco de Ararê, já quebrado, não salvará o filho. 

Sua cabeça altiva e sobranceira enquanto pronunciava estas palavras caiu-lhe sobre o seio; por fim venceu a sua emoção, e cingindo nos seus braços esses troféus de suas armas e de suas insígnias de guerra, estreitou-as ao peito em um último abraço de despedida. 

Um aroma agreste das plantas que começavam a se abrir com a aproximação do dia, avisou-lhe que a noite estava a acabar. 

Quebrou a axorca de frutos que trazia na perna sobre o artelho, como todos os selvagens: este ornato era feito de pequenos cocos ligados por um fio e tingidos de amarelo. 

Peri tomou dois destes frutos e partiu-os com a faca, sem contudo separar as cascas; fechando-os então na sua mão, levantou o braço como fazendo um desafio ou uma ameaça terrível e lançou-se fora do aposento.  


NA BRECHA 

 

Quando Peri entrou no quarto de Cecília, Loredano passeava do outro lado da esplanada, em frente do alpendre. 

O italiano refletia sobre os acontecimentos que haviam passado nos últimos dias, sobre as vicissitudes que correra a sua vida e a sua fortuna. 

Por diferentes vezes tinha posto o pé sobre o túmulo; tinha tocado a sua última hora; e a morte fugira dele, e o respeitara. Também por diferentes vezes havia encarado a felicidade, o poder, a fortuna; e tudo se esvaecera como um sonho. 

Quando à frente dos aventureiros revoltados ia atacar a D. Antônio de Mariz que não lhe podia resistir, os Aimorés tinham aparecido de repente e mudado a face das coisas. 

(continua...)

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