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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Nada do que ouviu será sabido. No dia em que eu me casar com sua sobrinha, queimaremos juntos a carta fatal.

– Mas o que é que eu devo fazer?... perguntou a mísera viúva.

– Primeiramente fazer com que esse mancebo que mora no “Purgatório-trigueiro”, desapareça destes lugares; conseguir dele uma carta para sua sobrinha, carta em que se apague toda a esperança de amor.

– Oh! mas isso é impossível.

– Nada é impossível, senhora.

– Porém de que modo conseguir isso?...

– Uma mulher que se ajoelha e chora aos pés de um homem consegue tudo, principalmente quando esse homem é um moço.

Mariana abaixou a cabeça.

– Depois, prosseguiu Salustiano, convirá que seu pai se interesse a meu favor, convirá que a “Bela Órfã” ouça os seus conselhos, e até os seus rogos; e, em último caso, é preciso que se imponha.

– E se ela resistir?

– É uma criança; resistirá ao princípio, chorará depois, e cederá no fim.

– Está bem.

– Não voltarei a esta casa, concluiu Salustiano levantando-se, senão na véspera de seu casamento, e então... ou se hão de assinar as escrituras do meu, ou... a senhora o sabe...

Salustiano saiu.

Meu Deus!... meu Deus!... exclamou Mariana dolorosamente; eu não pensava qu e a minha desgraça fosse tão grande!... eu não me lembrava de ter escrito a confissão do último crime!... Oh!... isso foi loucura... e a loucura que me fez escrever tal, é o primeiro castigo da Providência!...

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Quando Salustiano deixou o “Céu cor-de-rosa”, o velho Rodrigues estava sossegadamente sentado na porta do alpendre... mas não cantava como de costume.

CAPÍTULO XXXII

NO JARDIM

NESSA mesma tarde em que Mariana fora perturbada e arrancada do seu belo sonhar de alegres fantasias pelo rodar de uma carruagem, e ao mesmo tempo que na sala tinha lugar uma cena dolorosa e terrível, no jardim do “Céu cor-de-rosa” outra se apresentava mais doce, mais terna, mais cheia de esperanças.

Celina, fiel aos inocentes amores de sua infância, pois que, como dizia, tinha amado nessa idade feliz o primeiro raio do sol e as flores, estava sentada no banco de relva do caramanchão, melancólica e pensativa.

Tinha na mão direita um botão de rosa, que acabava de colher; ás vezes olhava para ele e suspirava; às vezes deixava cair a cabeça e meditava; às vezes enfim, corando de si mesma, erguia a cabeça e lançava os olhos para o lado esquerdo...

Ao lado esquerdo, e dominando o caramanchão, estava uma pequena janela do sótão do “Purgatório-trigueiro”.

Celina era uma dessas jovens de imaginação viva e ardente, que a natureza cria como para serem estrelas do céu dos poetas. Essa viveza, esse ardor de imaginação transpirava em tudo...

Aquele sonho do botão de rosa... aquele coração que se escondia em um envoltório tão inocente e tão puro... aquele amor começado por uma oração; aqueles laços que se tinham apertado aos olhos de Deus e à face de um túmulo; aquela história que ela mesma escrevera em uma hora de feliz melancolia, tudo enfim demonstrava que na alma dessa moça havia o quer que seja de poesia, de amor do belo, de modo de ver de artista.

Mas se essa viveza, se esse ardor de imaginação era ainda um encanto de mais na “Bela Órfã”, encanto que a tornava dobradamente encantadora, era ao mesmo tempo uma lente mágica que agigantava seus infortúnios e seus pesares.

A imaginação faz do poeta o mais feliz e ao mesmo tempo o mais desgraçado dos homens; porque na fruição de prazeres e no sofrimento dos desgostos o poeta goza mais do que há, e sofre o dobro do que em realidade existe.

Celina achava-se neste caso.

E ela nessa tarde, como em todas as dos últimos dias, estava sentada no banco de relva do caramanchão meditando tristemente, quando a passos vagarosos e com semblante prazenteiro se aproximou do lugar onde se achava a moça o velho guarda-portão.

Celina olhou para ele com doçura, e quase com esperança. Aquele homem de ordinário acertava de lhe falar sobre o jovem do “Purgatório-trigueiro”.

– Sempre triste!... disse o velho.

– Pois então... murmurou a moça, devo acaso estar alegre?..

– Digo que não há razão... para tão longas melancolias.

– Quando talvez julgam mal de mim... disse corando a “Bela Órfã”.

– Ele já conhece toda a verdade.

– Quem lha expôs?...

– Não fui eu.

– Mas quem foi?...

– Senhora, abusaram de um segredo... roubaram-lhe uns papéis... uma história de amor...

– Meu Deus!...

– Nessa história do seu amor a sua justificação estava completa...

– E então...

– Aquele que lha roubou levou-a ao “Purgatório-trigueiro”, e entregou-a ao sr. Cândido...

– Oh!...

(continua...)

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