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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Félix saiu do quarto e, dirigindo-se ao escritório, de lá voltou logo com algumas letras em branco; fechou-se de novo por dentro com Otávio, e depois de temerosamente correr os olhos em derredor de si, encheu as letras, as quais foram assinadas por ele como aceitante, na qualidade de administrador da casa e procurador bastante de Hugo de Mendonça. Todas elas deveriam vencerse pouco tempo depois; quando as letras estiveram prontas, Félix as entregou a Otávio, que, somando-as, disse:

— Bem, são quarenta e seis contos de réis.

— E agora, disse Félix abaixando os olhos, o que me pertence?

Otávio, tendo guardado as letras com todo cuidado, tirou do bolso um pequeno embrulho, que deu ao guarda-livros.

Félix arrancou o papel que envolvia aquele objeto, e achou uma pequena boceta forrada de veludo preto.

Abriu a boceta e achou uma cruz cravada de brilhantes.

— É isto mesmo, disse tremendo.

XXVIII

Pai e negociante

Hugo de Mendonça, deixando a bela casinha de Niterói, tinha vindo a instâncias de Lucrécia, morar vizinho dela, nesse bairro alegre e aristocrático chamado da Glória, onde a diplomacia e a riqueza têm, no Rio de Janeiro, assentado o trono de seus prazeres.

A elegante casa ocupada pelo pai de Honorina ergue-se do meio de um jardim, que, desdobrando-se, primeiro faz frente para essa soberba rua sempre trêmula pelo rodar das carruagens, sempre ruidosa pela multidão que por ela vai a caminho; e depois se continua por outra, que, em compensação, sossegada, solitária e melancólica, se termina breve defronte do mar.

Ante a rua orgulhosa e nobre se ostenta magnífico portão de grades de ferro, que se abre em par preso a duas elevadas colunas de pedra, ao mesmo tempo que pela outra, solitária e melancólica, se franqueia o jardim por um pequeno pórtico engraçado e modesto, a cujos lados se levantam dois terraços, cada um dos quais tem no fundo duas portas, que dão entrada a uma saleta de recreio.

Como acima fica dito, no meio desse jardim levanta-se a vistosa casa em que mora o pai de Honorina.

Era um domingo às nove horas da manhã.

Apesar de ser feriado, como era esse dia, o que tinha seguido à horrível noite, em que sobre a vergonha passada de um homem levantava outro homem também sua vergonha, Félix foi cedo procurar a seu amo para dar-lhe a fatal notícia da triste posição de sua casa, da ruína que o esperava: ruína iminente... talvez inevitável.

Ema e Honorina praticavam na sala, enquanto em um gabinete contíguo a esta, Hugo se ocupava em examinar vários papéis e livros comerciais, quando anunciaram Félix.

O negociante escutou, estremecendo o anúncio daquela inesperada visita; e, com o pressentimento de um infortúnio, ordenou que fizessem entrar o mancebo para o gabinete.

Hugo conhecia que seus negócios não se achavam no melhor pé possível: ele tinha herdado de seus pais uma casa forte pelo crédito que merecia, manca, porém, em si mesma pelas grandes dívidas que sobre ela pesavam, e que não podiam ser de pronto satisfeitas; pois que não era lícito ao honrado negociante dispor, para pagá-las, dos bens que cabiam por herança à sua mãe e a Honorina.

O irmão de Hugo, falecido quase ao mesmo tempo que seu pai, havia deixado bens consideráveis; morrendo, porém, sem testamento e tendo um filho único, embora ausente, esses bens não deviam ser empregados em favor dos interesses particulares de Hugo, que, sempre consciencioso e nobre, zelava a herança de Lauro com um respeito religioso.

E, pois, Hugo de Mendonça, que, para ficar senhor independente da casa de seu pai, se obrigara a todas as dívidas, que a faziam gemer, começara logo a lutar com imensas dificuldades; todavia, tendo um nome cheio de brilhante reputação e uma vida ainda sem mancha, pôde sustentar-se no mesmo pé em que dantes vivera seu pai; obrigado a sair da corte para tomar conta dos bens, que longe haviam deixado seus parentes, ele pôs os seus negócios sob a direção de um moço que, há dez anos, era o primeiro caixeiro de casa, e que jamais dera azo à menor desconfiança da sua probidade.

Voltando depois de alguns meses de ausência, Hugo achou tudo no mesmo estado... a casa se debatia ainda apertada pelos mesmos empenhos... mancava sempre; mas era inegável que Félix, que a ficara administrando com amplos poderes, fizera admiráveis esforços para sustentála.

Quem julgasse a Hugo de Mendonça pelas aparências, o acreditaria tão feliz como rico; além de ser o gênio naturalmente alegre, o negociante, à semelhança da jovem loureira que, abatida e amargurada no fundo da alma, ainda assim levanta orgulhosa a cabeça diante de suas rivais, fazia por esconder seus concentrados tormentos sob um aspecto de felicidade; mas, para contrastar a alegria de seus dias, ele passava noites cruéis de cálculos baldados; noites que ele gastava em lembrar e somar suas dívidas; em sentir apertar-se-lhe o coração, prevendo que lhe seria preciso voltar-se para sua mãe e sua filha, e pedir-lhes seus bens para perder tudo, menos a honra.

Foi por isso, sem dúvida, que ele estremeceu, ouvindo anunciar a visita de Félix a horas em que o não devia esperar.

O guarda-livros entrou e, obedecendo à voz de Hugo, sentou-se defronte dele.

(continua...)

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