Por Aluísio Azevedo (1895)
- Cale-se por amor de Deus!
- Não tem que se revoltar com o que estou dizendo! é na qualidade de amigo e de irmão que lhe falo! Ninguém terá maior empenho do que eu em protegê-la!
- Não posso aceitar uma proteção que acusa e ofende meu marido...
- Em sua defesa, eu acusaria o próprio Deus, se ele a desgostasse!...
- Pois se assim é, proteja-me estimando Teobaldo, perdoando-lhe as faltas e defendendo aos olhos dele a minha causa. Só por essa forma provaria o primo que me estima deveras.
Mas, justamente nessa ocasião, Teobaldo, em um camarote defronte do da esposa, fazia a corte à mulher do tal conselheiro de quem dependia a criação do seu jornal.
Experiente e vivo como era, sabia que as mulheres são o melhor conduto para se chegar aos maridos. - Porque, considerava ele - das duas uma: ou a sujeita é boa e por bondade cederá ao meu pedido; ou não é, e neste caso eu a farei solidária nos meus interesses, desde que a converta em minha amante.
A senhora do conselheiro, posto não fosse de todo desengraçada e despida de seduções, era já uma gordachuda quarentona que em ninguém acenderia delírios de amor, e muito menos em Teobaldo, que, a respeito de mulheres, só tinha tido até ali boas fortunas. Não se tratava, porém, de satisfazer ao gosto e sim de arranjar proteção, e como ele, logo ao primeiro ataque, descobriu que a esposa do conselheiro pertencia à segunda daquelas duas ordens, tratou de dar toda força aos seus recursos de insinuação e aos seus artifícios de conquistador.
Foi tiro e queda! No fim de pouco tempo de conversa a senhora do conselheiro se interessava visivelmente pelo marido de Branca. Ouvia-o com toda a atenção, abanandose indolentemente, a sorrir e a contemplá-lo em silêncio.
Ele falava de tudo, promiscuamente, tocando apenas com a ponta da asa do seu espírito no assunto que se oferecia; não esteve calado um instante; depois ergueu-se de súbito e, o claque em punho, o ar todo restrito, pediu as ordens da excelentíssima senhora, lamentando ainda uma vez a ausência do conselheiro, a quem fazia empenho de ser apresentado.
- Pois então apareça-nos sexta-feira. Está convidado. Eu prevenirei meu marido de que o senhor não faltará. Vai?
Teobaldo vergou-se todo defronte destas palavras, disse que sim com um gracioso sorriso e, requintando a sua cortesia, beijou a mão que a senhora do conselheiro lhe havia estendido.
- É interessante este rapaz! anotou ela consigo, depois de sair a visita.
- Estou garantido! pensou ele, quando se viu em liberdade.
Entretanto, o Aguiar, que não perdera um só dos movimentos do marido de sua prima, chamou a atenção desta sobre o modo pelo qual ele se despedia da outra.
- Não há de ser por mal... considerou Branca, afetando tranqüilidade, mas no íntimo ressentida.
É que acabava de cair por terra mais uma das pedras do pobre castelo das suas ilusões.
VII
Por esse tempo o Coruja, sempre lutando com o seu coração, com a sua natural antipatia, com o seu trabalho excessivo e com as exigências da velha Margarida e mais da filha, achava-se em uma situação especial.
O diretor do colégio, em que ele trabalhava havia tantos anos, um viuvão preso ultimamente à cama pelo reumatismo, acabava de sucumbir pedindo-lhe, antes de morrer, que ficasse com o estabelecimento e fizesse o possível para mantê-lo sem quebra dos créditos até aí conquistados.
André prometeu; mas, feito o inventário do colégio, verificou-se que este devia dez contos de réis, ficando por conseguinte quem tomasse conta dele obrigado a fazer frente a esse débito.
Ora, o Coruja não tinha dez contos de réis, nem donde os haver, pois que Teobaldo, único a quem ele poderia recorrer, já não se achava em circunstâncias de servi-lo.
Entretanto, mesmo com algum sacrifício, pagava a pena de ficar com o colégio, porque, em primeiro lugar, o que havia dentro deste valia bem a metade daquela quantia, e, em segundo lugar, o estabelecimento era um dos mais acreditados da corte e contava um bonito número de alunos. Notando-se ainda que a ninguém convinha como ao Coruja ficar com ele a dirigi-lo, visto que de há muito fazia as vezes do diretor, e, valha a verdade, com vantagem sobre o verdadeiro, já por introduzir no estabelecimento muitas das reformas do ensino primário, já por desenvolver várias aulas que encontrou quase que em estado de abandono.
Ora, se o Banco do Brasil, que era o principal credor, cedesse dois anos de moratória, o Coruja, empregando todo o seu esforço, bem podia dar conta do recado.
Tratou-se do negócio. O Banco mediante a hipoteca do colégio, dava um ano para a entrada da metade da dívida e outro ano para a entrada do resto. André teria, pois, se fechasse o acordo, de apresentar seis contos de réis daí a um ano e outros seis daí a dois, submetido, já se vê, aos juros da lei.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.