Por Aluísio Azevedo (1897)
Principiou então para ele a verdadeira vida de boêmia. Quanta privação e quanto vexame! mas também quanta dourada fantasia! quanto aroma de mocidade em flor, e quanta delicadeza de sentimentos!
Com três forasteiras andorinhas se encontraram à beira de um telhado antes de formar o seu verão, encontraramse os três boêmios um belo dia por acaso à mesa de um café da rua do Ouvidor, e conversaram, e riram, leram e fumaram de camaradagem os seus versos sem conta e os seus cigarros bem contados, fingiram juntos depois um jantar de quatrocentos réis por cabeça, e ficaram bons amigos. Já nessa mesma noite dormiram os três no mesmo quarto, e desde então formaram a sua república, onde muitas vezes durante o dia inteiro faltava o que comer, o que fumar e o que beber, mas onde nunca faltou do que rir, com o que sonhar e a quem amar.
Uma tarde, entretanto, Gustavo ficara em casa. Era o dia de seus anos, e nesse dia justamente o sonhador não havia jantado, nem almoçado, e a fome lhe fazia o tempo mais frio e as horas mais longas.
O sol esconderase. Gustavo fechou o livro que lia e foi pôrse à janela, a olhar vagamente para o espaço. Havia no ar uma dura melancolia, que se levantava para o céu com as pardacentas névoas exaladas da terra; a natureza, repousada e farta, bocejava a sua indiferença; a cidade, quieta e morna, parecia entorpecida na egoística placidez de uma digestão feliz.
A república era num segundo andar, nos fundos da rua Santa Teresa, e aos ouvidos do boêmio chegava o eco da música dos alemães tocando no Passeio Público.
Apareceu a primeira estrela.
Então o desterrado sentiu abrirselhe por dentro no coração um fundo e sombrio vale de saudades. Lembrouse da sua extinta família, das suas afeições interrompidas de toda a sua infância protegida e afagada. Quanta recordação! Naquele dia de seus anos reuniramse em casa os amigos do pai, faziase festa, levavamlhe presentes. Foi naquele mesmo dia que ele uma vez recebeu de mimo o relógio de ouro, agora empenhado sem esperanças de resgate, como recebeu o anel e o alfinete de gravata já também engolidos pelo mesmo sorvedouro.
Depois de muito divagar pelo seu passado ainda quente, Gustavo foi buscar o retrato de sua mãe e, à derradeira luz do crepúsculo, quedouse a contemplálo silenciosamente, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces.
Dias depois, já o tal jornal em que ele trabalhava havia estourado, ficando a deverlhe três meses de salário, e o sonhador atravessava as ruas da Corte, a torcer com insistência o buço, nesse ar desconfiado e revesso dos moços de aspirações intelectuais, a quem, fora da família, vieram a faltar de todo os meios de subsistência; cabeça baixa, olhar carregado, roupa no fio e sapatos rotos. Alguns conhecidos seu fingiam não o ver, menos o Reguinho que estava sempre a oferecerlhe fantásticos empregos. Gustavo nessas ocasiões sentia um grande e impotente ódio sufocarlhe o coração, e mentalmente fazia terríveis projetos de vingança contra tudo e contra todos.
As dificuldades reproduziamse para ele sem trégua, nem resfolgo; cada dia a viver era um problema a resolver. Mas nem por isso se apeava dos seus sonhos, nem se deixava invadir pelo desânimo. Havia de achar furo na vida! havia de descobrir meios de vencer e chegar! havia de escrever os livros que sentia em gestação dentro do seu espírito, e havia de ter o quinhão que era da sua boca, o bocado para o qual a natureza o armara com aqueles belos trinta dentes, que ultimamente lhe serviam mais para rir do que para comer.
Que diabo! monologava ele em revolta. Há por aí tanto sujeito, nulo de inteligência e de aptidão para qualquer trabalho, que todavia anda limpo, satisfeito e confortado, por que não hei de eu conseguir ao menos ter o estômago seguro e um abrigo certo, para poder dedicar às letras algumas horas por dia?..
De todos esses misteriosos recursos, de que no Rio de Janeiro vivem em grande quantidade certos meliantes que muito consomem e nada produzem, o jogo, o calote, o dinheiro arranjado de empréstimo, as comissões gravadas à sede de pândega e à sensualidade dos ricos inexperientes, de tudo isso não tinha o pobre Gustavo sequer desconfiança na sua sonhadora ingenuidade; e o mesmo fato de se confessar ele necessitado de trabalho, como a sua leal modéstia, a sua franqueza, a sua honestidade enfim, eram outros tantos obstáculos que lhe trancavam os caminhos da vida.
De uma vez saiu a correr os colégios do Rio de Janeiro à procura de trabalho. Era impossível que entre tantos e tantos estabelecimentos de educação, não houvesse algum que precisasse dos seus serviços. Entrou no primeiro que encontrou. Veio recebêlo um velho, cuja fisionomia branda e simpática, e cujos cabelos brancos e respeitáveis, lhe inspiraram logo grande confiança. O velho era o diretor do colégio; fêlo entrar para a sala e lhe perguntou o que desejava.
— Ganhar a vida... disse Gustavo; venho oferecerlhe os meus serviços...
— Como professor?..
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.