Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Ao ato da encomendação achou-se presente o cura da Sé, que era então o Padre bacharel Antônio Rodrigues de Miranda, pretendendo ter a primazia no ofício que se ia celebrar, direito que lhe foi negado pelo padre provedor da irmandade, que era o Cônego João de Figueiredo Chaves Coimbra.
O cura bacharel e o provedor cônego travaram-se de razões, e a disputa assumiu um caráter tão sério, ou antes, desceu a uma briga tão baixa, que o cônego provedor teve a feliz inspiração de mandar fechar as portas da igreja, a fim de evitar que, com o testemunho do público, o escândalo se tornasse muito maior.
A questão foi levada ao conhecimento do Bispo D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, que, depois de ouvir a irmandade e reconhecer os seus direitos, sentenciou contra o cura bacharel.
O que mais me admira, recordando estes fatos, é que todas estas disputas rompessem entre os vigários e a irmandade de S. Pedro, sempre por causa de defuntos!
Apesar dos leves embaraços criados por estas contestações sem fundamento nem importância, exceção feita de questão da independência paroquial, que devia naturalmente ser de muita significação para os vigários da freguesia da Candelária, foi a irmandade de S. Pedro se desenvolvendo e robustecendo pouco a pouco.
De uma simples instituição que era, a princípio, passou a irmandade a compreender três instituições. De um único patrimônio que possuía, passou a ter e a administrar três patrimônios.
As três instituições são: a irmandade propriamente dita, o coro e os socorros aos sacerdotes e irmãos pobres.
Os três patrimônios correspondem às três instituições.
Continuo a história da irmandade em particular, e em seguida falarei de cada uma das outras duas instituições.
A irmandade de S. Pedro teve a sua época de florescimento no século passado, a começar do bispado de D. frei Antônio de Guadalupe, e chegou animada e esperançosa até alguns anos depois de 1830.
Durante esse século de prosperidade, preencheu sempre os seus fins, prestando à religião, ao Estado e aos membros que a compunham todos os serviços que eram possíveis esperar dela.
Não posso deixar de trazer à memória dos meus companheiros de passeio um fato que seria uma ingratidão condenar ao esquecimento.
Quando, em 1823, o governo imperial, escutando um brado patriótico de muitos brasileiros, aceitou uma contribuição mensal para compra de navios de guerra que deviam servir na luta gloriosa da independência, a irmandade de S. Pedro não se esquivou, como, aliás, podia fazer, ao cumprimento de um santo dever de patriotismo; e por deliberação da sua mesa administrativa, de 26 de fevereiro daquele ano, sendo então provedor o ilustrado Cônego Luís Gonçalves dos Santos, assinou uma contribuição de oito mil-réis por mês, no espaço de três anos.
A quantia pode parecer pequena aos ricos. Não o era, porém, para a irmandade; e além de tudo, a manifestação dos sentimentos patrióticos que ela apresentou com esse ato é de sobra para fazer-lhe honra.
Em 1828, querendo o Sr. D. Pedro I estabelecer ou reunir em uma sala da Academia das Belas-Artes uma coleção de quadros recomendáveis pelo seu merecimento, a irmandade de S. Pedro, que tinha então por seu provedor o Monsenhor Duarte Mendes de Sampaio Fidalgo, ofereceu um quadro de S. Pedro e S. Paulo, que passava por primoroso, e cujo autor sinto que não tivesse ficado em lembrança. Sendo, porém, certo que o ministro do Império mostrou em um ofício de agradecimento dar muito apreço àquela oferta.
Sujeita às condições humanas, a irmandade de S. Pedro chegou ao termo dos seus tempos felizes com a administração do falecido vigário de Santa Rita, José Francisco da Silva Cardoso, e desde então foi pouco e pouco decaindo, e por tal modo, que ao sistema desvelado dos administradores que tivera sucederam o abandono e anarquia, tornando-se a própria igreja famosa pelo desleixo e incúria com que a deixavam em um estado realmente vergonhoso.
É quase incrível o que se passou e se observou na igreja de S. Pedro até ao ano de 1853, em que foi eleito provedor o Monsenhor Antônio Pedro dos Reis, que, enérgico e decidido, encetou uma verdadeira obra de regeneração, cortando por todos os abusos.
Para se fazer uma simples idéia do extremo lamentável a que
se viu reduzida a irmandade de São Pedro, copiarei algumas linhas de um ou
outro artigo do relatório que o Monsenhor Antônio Pedro dos Reis entregou ao
seu sucessor e a nova mesa administrativa, em 1856. Tratando das obras da
igreja, diz esse documento:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.