Por José de Alencar (1872)
- Vem dar um passeio comigo ao Carceler. Um sorvete e um charuto de Havana, são os melhores específicos para esses achaques. O primeiro apaga um incêndio mais chibantemente do que o coronel dos bombeiros; o segundo desfaz em fumo a paixão a mais descabelada. Ontem ouvindo o Rossi, fiz esta reflexão, que tem escapado aos mais profundos pensadores: Se Otelo fumasse, não estrangulava Desdêmona, e Shakespeare não poderia escrever aquela cena sublime do final; ficaria reduzido ao soco inglês.
Não ouvia Ricardo as pilhérias do amigo, nem deu fé quando ele, no meio da sua parolice, eclipsou-se pela escada do sótão, para ir pautear pela calçada do Carceler e Rua do Ouvidor, na esperança de encontrar a mulher do conselheiro Barros.
No dia seguinte, recordando o golpe que na véspera sofrera, e estava ainda aberto dentro n’alma, teve Ricardo uma veleidade, um desejo, um impulso... Ver Guida. Para quê? Sob que pretexto? Em que intuito? Nem ele o sabia; nem lembrou-se de inquirir de si próprio; pois logo repeliu essa idéia como uma extravagância do espírito.
Durante as horas do trabalho, a agitação da cidade, o movimento dos negócios, o rumor das ruas, distraíram o moço.
À tarde, porém, a lembrança que despontara pela manhã, tornou-se em necessidade imperiosa: e ele não pôde resistir. Deixou-se levar à toa, como um batel que voga ao fluxo das águas. Chegando à praia de Botafogo, apeou-se do bonde e seguiu a pé até o portão do palacete. Foi depois de entrar, que se lhe apresentou a estranheza do passo.
Só a convite, e de longe em longe, viera à casa do Soares; nunca tinha freqüentado as reuniões de todas as noites, nem mesmo as partidas semanais do banqueiro. Que explicação tinha pois essa visita avulsa e sem causa?
O resultado da reflexão foi sair apressadamente, receoso de que o vissem. Não tinha porém dado cem passos, que já se arrependera de não haver realizado o primeiro intento, e moderou o andar, pensando em retroceder.
Avistou Fábio que saía nessa ocasião; foi-lhe ao encontro. Aí estava o pretexto da visita.
- Vi-te passar. Estava em casa do Soares, no jardim; vem comigo; passaremos lá a noite.
- Tens razão, respondeu Ricardo apertando-lhe a mão. Neste momento preciso muito daquele gramo de loucura, com que o poeta manda temperar o juízo; e que realmente é o melhor sal da razão, pois a preserva de corromper-se. Começava o crepúsculo.
Apesar da sombra que já havia no jardim, sobretudo onde copava o arvoredo, perceberam as duas moças a profunda alteração da fisionomia de Ricardo, não que estivessem descompostas suas feições, mas havia nelas a impressão digna e fria da dor vencida após uma luta heróica.
Guida envolveu em seu olhar compassivo o rosto do mancebo e murmurou dentro d’alma:
- Como ele a amava!
Entretanto, D. Guilhermina procurava reanimar a conversa:
- É um milagre, vê-lo, já não digo em nossa casa, porque a não ser uma visita de cartão, não lhe merece mais; mas aqui! Nem passando lembrou-se de entrar.
- Tenho desculpa, minha senhora. Falta-me o tempo.
- Agora não a tem!
- Agora, por quê? perguntou Ricardo volvendo um olhar suspeitoso para Fábio, que se eclipsou.
Guida estremeceu; e D. Guilhermina mordendo o beiço com um riso malicioso, afastou-se do lado que tomara Fábio, tanto para evitar um novo lapso, como para deixar os dois em liberdade.
Apoderou-se de Guida um enleio invencível, quando se viu a sós com Ricardo, no jardim; e mais crescia sua perturbação com o silêncio do moço, que de seu lado também parecia tomado de súbito constrangimento. Nesse momento, as salas iluminadas derramaram sobre o jardim o clarão das janelas; e um murmúrio de vozes na entrada anunciou a chegada das visitas habituais, que vinham passar a noite em casa do Soares. - É melhor entrarmos, disse Guida; e correu ao encontro de Clarinha, que passava com o barão de Saí.
Ricardo a acompanhou de longe, e instantes depois procurava nas conversas e burburinhos da sala, aquele grão de sal de que ele carecia para serenar a sua tristeza.
Mais de uma vez chegou-se para a filha do banqueiro com intenção de lhe dirigir a palavra; mas alguma força oculta o tolhia, que afastava-se, disfarçando o primeiro movimento.
Não escapou a Guida esta perplexidade. Convencida de que Ricardo lhe desejava falar, mas retraía-se na presença das pessoas que a cercavam, afastou-se um instante da roda das moças e cavalheiros a pretexto de ir ao interior; na volta chegou-se ao piano, e demorou-se em escolher uma peça para tocar.
Ricardo, recostado nesse momento ao vão de uma janela, foi talvez a única pessoa que seguiu os movimentos da moça, enquanto ela folheava o álbum, e não chamava a atenção ferindo as teclas do instrumento.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.