Por José de Alencar (1875)
Foi dessa vez que, vagando pelo campo do lado do Riacho do Sangue, encontrou atirado ao chão um homem nos últimos arrancos.
Arnaldo perguntou-lhe o que tinha:
— Sede! respondeu o morimbundo com a voz extinta.
Cortou o menino uma haste de mandacarú, e tirando os espinhos, espremeu-a na bôca do desconhecido, para aplacar o maior ardor, enquanto ia à busca de uma cacimba, pois era pela sêca e os rios já tinham desaparecido.
Reparou então o menino que o velho tinha as mãos atadas às costas:
— Quem o amarrou?
— Eu mesmo.
Ao gesto de espanto de Arnaldo, acrescentou:
— Eu queria morrer. Mas é horrível!…
Resolvido a deixar-se morrer, o velho armara um laço, cruzara os pulsos nas costas, e metendo-os na corda, fizera disparar o nó que lhe atara as mãos.
Assim, ainda quando quisesse buscar água para matar a sede, não poderia. Condenara-se à mais atroz das mortes, e já tinha sofrido terrível suplício quando o menino o encontrou.
Arnaldo salvou o infeliz e o persuadiu a acompanhá-lo. Jó, pois era êle, sentira desde logo uma atração irresistível para êsse menino; sua existência, que nada já prendia à terra, achara alí um elo misterioso. Deixou-se conduzir e governar por aquela criança.
O vaqueirinho levou Jó à casa materna. A Justa agasalhou o velho, enquanto o filho construia para seu amigo a cabana da várzea. Nunca soube-se na Oiticica donde viera êsse desconhecido; dele apenas se obteve esta informação vaga:
— Eu tinha uma cabana no Frade; os malditos puseram-lhe fogo para queimar-me vivo.
Jó serviu de mestre a Arnaldo. Sentado à soleira da cabana, durante as noites esplêncidas do sertão, o velho deixava que o pensamento divagasse pela intensidade do céu e da terra, e vazava no espírito ávido do sertanejo todos os tesouros de sua experiência.
Arnaldo tinha partilhado das lições que o padre capelão dava a Flor, Alina e Jaime; mas sabidas as primeiras letras, o haviam tirado da escola, visto que um vaqueiro não carecia de mais instrução, e essa mesma já era luxo para muitos que se contentavam em saber contar pelos riscos de carvão.
Foi de Jó que recebeu o menino conhecimentos irregulares, sem método e ligação, porém muito superiores aos que se encontravam no sertão por aquele tempo em pessoas do povo. Entre muitas coisas, ensinou-lhe o velho a língua tupí, na qual era versado.
Suspeitava Arnaldo que havia na existência do velho um doloroso mistério; mas respeitava-o, e essa reserva foi talvez uma das causas da grande afeição que inspirou ao infeliz ancião.
XIII – A viúva
Tornando à fazenda depois de oito dias de ausência, Arnaldo andava arisco e sem ânimo de aproximar-se de Flor.
Receava-se do ressentimento que a menina devia conservar contra êle por causa do desbarato a que reduzira a festa e o altar do casamento. Assim andava por longe, espiando às ocultas a formosura de sua santa, e matando as saudades que tinha curtido naqueles últimos dias.
A primeira vez que ousou chegar-se para os companheiros, Flor atirou-lhe desdenhosamente estas palavras:
— Bicho do mato!
— Onde andou você todo êste tempo, Arnaldo? perguntou Alina queixosa.
— Ainda você pergunta? Esteve com os seus companheiros, dele, os caitetú. Isto não sabe viver entre gente.
Arnaldo não respondeu. O que Flor dizia era a verdade; êle nascera para habitar no seio das florestas; era sertanejo da gema.
Jaime pouco mais demorou-se na fazenda. O capitão-mór aproveitou a partida de um parente seu do Aracatí para enviá-lo a Lisboa, onde o esperava o avô.
De novo espalhou-se o terror pelos campos de Quixeramobim. Anhamum, o feroz chefe dos Jucás, voltara à frente de quinhentos arcos, e desta vez para assaltar a Oiticica e tirar a desforra.
Logo divulgou-se a notícia, o capitão-mór preparou-se para receber os selvagens, os quais não se fizeram esperar. Uma noite chegaram êles à margem do Sitiá e anunciaram-se pela sua formidável podema de guerra. No dia seguinte as casas da fazenda estavam cercadas.
Por muitos dias não fizeram os selvagens a menor demonstração hostil; sentia-se que êles estavam perto, mas não se mostravam a descoberto. Esperavam ocasião azada para investir, ou queriam obrigar os sitiados a uma sortida.
Nisto deu-se por falta de duas pessoas na fazenda: Arnaldo e Aleixo Vargas. A crença geral foi que tinham ambos caído nas mãos dos Jucás e já todos lamentavam a sua perda. Flor derramou lágrimas sentidas e copiosas por seu colaço e a pedido dela o capitão-mór ordenou uma sortida com o fim de livrar os dois prisioneiros, se ainda o fossem, e já não estivessem mortos. Eis o que havia acontecido.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.