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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Álvaro não estava menos comovido; subjugado por aquele amor ardente, impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para acompanhá-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude, tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma. 

Mas apenas pronunciara aquelas palavras imprudentes, conseguiu dominar-se, e tornando-se frio e reservado, falou a Isabel em um tom grave. 

— Sabeis que amo Cecília; mas ignorais que prometi a seu pai ser seu marido. Enquanto ele por sua livre vontade não me desligar de minha promessa, estou obrigado a cumpri-la. Quanto ao meu amor, este me pertence, e só a morte me pode desligar dele. No dia em que eu amasse outra mulher que não ela, me condenaria a mim mesmo como um homem desleal. 

O moço voltou-se para Isabel com um triste sorriso: 

— E compreendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a consciência precisa para se julgar a si? 

Os olhos da moça brilharam com um fogo sinistro: 

— Oh! compreendo!... É o mesmo que faz a mulher que ama sem esperança, e cujo amor é um insulto ou um sofrimento para aquele a quem ama! 

— Isabel!... exclamou Álvaro estremecendo. 

— Tendes razão! Só a morte pode desligar de um primeiro e santo amor aos corações como os nossos! 

— Deixai-vos dessas idéias, Isabel! Crede-me; uma única razão pode justificar semelhante loucura. 

— Qual? perguntou Isabel. 

— A desonra. 

— Há ainda outra, respondeu a moça com exaltação: outra menos egoísta, mas tão nobre como esta; a felicidade daqueles que se amam. 

— Não vos compreendo. 

— Quando se sabe que se pode ser uma causa de desgraça para aqueles que se estima, melhor é desatar o único laço que nos prende à vida do que vê-lo despedaçar-se. Não dizíeis que tendes medo de amar-me? Pois bem, agora sou eu que tenho medo de ser amada. 

Álvaro não soube o que responder: estava numa terrível agitação: conhecia Isabel, e sabia que força tinham aquelas palavras ardentes que soltavam os lábios da moça. 

— Isabel! disse ele tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma afeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repeli esses pensamentos! Eu vos suplico! 

A moça sorriu-se melancolicamente: 

— Vós me suplicais?... Me pedis que conserve esta vida que recusastes!... Não é ela vossa? Aceitai-a; e já não tereis que suplicar! 

O olhar ardente de Isabel fascinava; Álvaro não se pôde mais conter; ergueu-se, e reclinando-se ao ouvido da moça balbuciou: 

— Aceito! 

Enquanto Isabel, pálida de emoção e felicidade, duvidava ainda da voz que ressoava no seu ouvido, o moço tinha saído da sala. 

Durante que Álvaro e Isabel conversavam a meia voz, Peri continuava a contemplar a sua senhora. 

O índio estava pensativo: e via-se que uma idéia o preocupava, e absorvia toda a sua atenção. 

Por fim levantou-se, e lançando um último olhar repassado de tristeza a Cecília, encaminhou-se lentamente para a porta da sala. 

A menina fez um ligeiro movimento e levantou a cabeça: 

— Peri!... 

Ele estremeceu, e voltando foi de novo ajoelhar-se junto do sofá. 

— Tu me prometeste não deixar tua senhora! disse Cecília com uma doce exprobração. 

— Peri quer te salvar. 

— Como? 

— Tu saberás. Deixa Peri fazer o que tem no pensamento. 

— Mas não correrás nem um perigo? 

— Por que perguntas isso, senhora? disse o índio timidamente. 

— Por quê?... exclamou Cecília levantando-se com vivacidade. Porque se para nos salvar é preciso que tu morras, eu rejeito o teu sacrifício, rejeito-o em meu nome e no de meu pai. 

— Sossega, senhora; Peri não teme o inimigo; sabe o modo de vencê-lo. 

A menina abanou a cabeça com ar incrédulo. 

— Eles são tantos!... 

O índio sorriu com orgulho. 

— Sejam mil; Peri vencerá a todos, aos índios e aos brancos. 

Ele pronunciou estas palavras com a expressão de naturalidade e ao mesmo tempo de firmeza que dá a consciência da força e do poder. 

Contudo Cecília não podia acreditar o que ouvia; parecia-lhe inconcebível que um homem só, embora tivesse a dedicação e o heroísmo do índio, pudesse vencer não só os aventureiros revoltados, como os duzentos guerreiros Aimorés que assaltavam a casa. 

(continua...)

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