Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Embora! exclamou Mariana com ardor; já me tenho curvado demais, já tenho arrastado meu rosto pela terra muitas vezes, já tenho comprometido a salvação de minha alma. Minha alma que se purgue de seus erros, que expie suas culpas na humilhação e nos tormentos que me esperam!
– Oh! como lhe parecer.
– Já tenho sido fraca demais! minha reputação... não tem sido ela quase que nodoada já? não consenti, porventura, que se persuadissem que eu amava um homem que aborreço? eu, mulher casada, não passei por namorada de um moço sem nobreza? não se lembra, senhor, dessa terrível noite em que um cravo rajado passou de meu peito para seu paletó?... que disseram todos? disseram uma calúnia; mas quem teve culpa dessa calúnia foi a minha fraqueza.
Salustiano levantou os ombros e sorriu.
– Ainda há poucos dias, senhor, para não revolver mais o passado, ainda há poucos dias não pratiquei uma indignidade?... não caluniei minha inocente sobrinha fazendo um honrado mancebo acreditar que ela o desprezava por ser pobre? não bati com a porta de minha casa no rosto desse mancebo?... oh! o que quer mais?... o que pretende ainda?... devo eu ser miserável toda a minha vida? não repara que uma vida assim é pesada como um fardo enorme? não! não! e não!... faça o que lhe parecer: perca-me, mas pela minha parte basta de humilhar-me ante um homem sem generosidade.
– Bem, disse com frieza Salustiano; posso então fazer da carta que está em minhas mãos o uso que me parecer?...
– Que indignidade!...
– Não responde?
– Faça o que quiser.
– Oh! vê-se bem que a senhora não se lembra do que escreveu há vinte e um anos passados!
– Senhor!
– Cuida que nesse papel existe apenas a confissão de uma falta que às vezes o mundo desculpa?... não, senhora! ali se confessa um erro e um crime!
– Senhor!...
– Um crime que horroriza a natureza... um crime pelo qual a justiça de Deus há de condená-la a penas terríveis, e a justiça dos homens pode arrastá-la ao banco dos condenados, ao cárcere, ao patíbulo mesmo!
– Senhor...
– Oh! quem diria que esta mulher orgulhosa e insolente, que se apresenta em toda a parte com a cabeça tão levantada, carrega sobre a cabeça o mais horrível dos crimes?.
– Miserável!
– Sim... sim... miserável embora; mas este miserável pode aparecer com o rosto descoberto!... senhora, tudo está decidido: eu rompo o seu casamento, eu mato a sua ventura, eu me vingo!
Mariana arquejava.
– Primeiro irei ter com o homem que loucamente a ama, e mostrar-lhe-ei a sua carta... ou... se não... ah!... que idéia!..
O mancebo soltou uma risada. Mariana não achou em seu furor uma palavra para dizer-lhe.
– Tudo pode acabar em paz, minha senhora, disse com fingida amabilidade Salustiano: não haverá nem banco de condenados, nem cárcere, e muito menos patíbulo; a senhora casar-se-á com aquele que ama, e eu desposarei a jovem que adoro.
Mariana ficou olhando, e o terrível moço prosseguiu:
– Dispenso também a sua intervenção; achei um belo meio... que estupidez a minha!... deveria tê-lo há mais tempo lembrado. Aparece apenas um inconveniente:
há um velho que talvez morra de desgosto... paciência.
Mariana estremeceu.
– Amanhã, senhora, terei uma hora de conferência com o honrado, austero e amoroso sr. Anacleto. Quando eu o deixar só levarei a certeza de ser o esposo de Celina, e ele ficará mudo e terrível, pálido como um cadáver, e se falar, falará para amaldiçoar sua filha.
– Oh!...
– Porque ele há de saber (há de saber pela própria letra da senhora), que a filha de seu coração, que a orgulhosa e bela Mariana, no meio das mil loucuras de seus primeiros anos, amou um homem... e amou tanto... tanto... tanto... que perdeuse por ele!...
Mariana escondeu o rosto entre as mãos.
– Há de saber mais, que depois de cometida a primeira falta, cometeu ainda um crime abominável; há de saber que sua filha, em resultado de um momento de embriaguez, tinha de ser mãe; que inspirada pelo demônio, não o foi; não foi mãe...
porque... porque...
– Oh!... bradou Mariana.
– Porque matou seu filho.
Sucederam a essas terríveis palavras alguns momentos de silêncio. Mariana estava convulsa, tinha os lábios pálidos, o rosto cadavérico, as mãos estendidas para diante, e trêmulas como se quisesse defender-se de algum objeto; e com os olhos pasmos e terríveis, parecia talvez estar vendo diante dela a imagem do filho que havia assassinado.
Depois de algum tempo ela murmurou fracamente:
– Infanticídio... infanticídio...
Soltou um grito e desatou a chorar.
Salustiano, insensível e silencioso, esperou muito tempo que Mariana sossegasse um pouco. Quando a viu menos sobressaltada, disse-lhe:
– Então, senhora?...
– Perdão, senhor; balbuciou a desgraçada pondo-se de joelhos.
Salustiano ergueu-a, fê-la sentar e continuou:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.