Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Félix, tudo nos auxilia; o velho Raul de Mendonça e meu pai eram sócios em semelhantes empresas; mortos ambos quase ao mesmo tempo, não é inverossímil que ficassem ajustes, obrigações que prendessem ambas as casas; sabes que a fortuna me tem sido terrivelmente contrária nestes dois últimos meses; pois, bem... explica as tuas perdas pelas minhas... éramos sócios... ninguém virá dizer que não, porque eu tenho negociado só por minha conta; e, portanto, éramos sócios... e tu não fizeste mais do que cumprir antigas e inevitáveis obrigações... que, enfim, nós podemos documentar agora em dez minutos.
— Não! não!
— Félix, eu te escrevi uma carta, que poderás atirar-me ao rosto, se eu faltar ao que prometo!
— É uma infâmia...
— Que se lavará depressa.
— Sim, porque tu te desculparás com a paixão que te cega.
— E tu com o direito que eu tinha de te impor condições...
— Será dizer ao mundo que eu tenho sido infame toda a minha vida...
— Não; eu alcançarei o teu perdão e sepultarei o teu segredo.
— Mas não me livrarás de corar sempre diante de uma família inteira!
— É um sacrifício, Félix, eu o sei; porém, tu mo deves...
— Este não... é enorme!...
— É que tu ainda não pensaste que me não podes negar nada!...
— Otávio!...
— Que um homem, que tendo sido como eu, honrado em toda a sua vida, que não teve nela ainda uma só mancha, e chega a ponto de vir envergonhar-se a teus olhos, não hesitará um só instante em lançar mão dos últimos meios!
— Otávio!...
— Que um homem que ama, como eu amo, não conhece barreiras, não respeita nada... não se pode lembrar nem dos outros, nem de si!...
— Otávio!
— É que tu ainda não pensaste que eu estou dando o derradeiro passo! e que me agarro à última tábua! que acredito que tu podes ser o instrumento de minha ventura; e que se a isso te negares, eu posso, e hei de vingar-me!
— Mas é que tu não pensaste também, Otávio, que a minha queda trará após si a tua; porque tu me escreveste uma carta que te desonra!
— Embora! embora! eu pensei em tudo isso, e em mais ainda; porém, já te disse mil vezes, Félix: quem ama não respeita o mundo, não se lembra da virtude, está louco e perdido, e só pode salvar-se com a posse daquela que adora!
— Insensato!
— Eu pensei até na possibilidade de um outro crime, Félix! eu pensei que tu podias tentar arrancar de minhas mãos a prova de tua desgraça; e sabes o que fiz?... vim armado... para defender-me!... para salvar a minha esperança!...
— E para talvez matar-me, não é assim?
— Não! matar-te não; porque eu preciso da tua vida Félix, tu és a carta que eu jogo; a carta, mercê da qual devo ganhar a partida.
— Otávio, eu me espanto da tua audácia!...
— Admira antes o amor desesperado que eu tenho!...
— O que tu intentas, Otávio, chama-se roubo!
O rosto do mancebo tornou-se rubro de cólera e vergonha. Não podendo suster-se no primeiro momento, agarrou e sacudiu com força o braço de Félix e exclamou:
— Desgraçado! e és tu que falas em roubo?!
Félix, como fulminado por um raio, caiu sobre a cadeira de braços, da qual há um instante se tinha erguido.
Onze horas soaram então.
— Há uma hora que falamos em vão, disse Otávio sossegando; é necessário acabar com isto: decide-te.
— Estou decidido, respondeu Félix, não!
— Bem, amanhã haverá de mais dois desgraçados no mundo: de manhã tu serás vergonhosamente expulso da casa de Hugo de Mendonça como um vil ladrão; de tarde mostrarás a minha carta ao povo que me cuspirá no rosto.
E dizendo isto Otávio deu dois passos para a porta.
— Pára, Otávio! exclamou Félix.
— Queres dar-me as letras?...
— E onde está a prova de minha miséria?...
— Trouxe-a comigo.
— Juras-me que, se te casares com Honorina, conseguirás o meu perdão e sepultarás o meu segredo?...
— Juro... pela alma de meu pai.
— Que se não obtiveres a mão dessa infeliz moça, não sacrificarás a fortuna de seu pai?... Otávio pensou um momento.
— E então?
— Não juro, Félix; porque eu precisarei vingar-me! porque eu quererei abaixá-la muito para depois levantá-la.
— Desse modo... repito que não!
— Pois até amanhã, Félix...
Otávio encaminhou-se de novo para a porta.
— Piedade! piedade!... compaixão, Otávio!...
— Queres dar-me as letras?... perguntou o moço voltando o rosto.
— Oh!... tu és muito traidor para ser amigo!...
— Queres dar-me as letras?...
— Otávio!... Otávio!... isto é horrível!...
— Em conclusão?...
— Em conclusão, tu és o demônio!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.