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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Não me veio aos ouvidos. É que Pan tinha morrido e estava bem morto, debaixo de dois mil anos de macerações, de jejuns, de hipocrisias; e a alegria da natureza, a satisfação natural de viver, o sentimento de excelência da vida tinham sido enterrados com ele, tinham desaparecido da terra; mas a Pátria, esse monstro que tudo devora, continuava vitoriosa nas idéias dos homens, levando-os à morte, à degradação, à miséria, para que sobre a desgraça de milhões, um milhar vivesse regaladamente, fortemente ligados num sindicato macabro.

Quem me levava a terras tão distantes? Quem me tirava toda a minha satisfação de viver? Quem fazia que eu até então não encontrasse na vida nem com que me vestir bem, nem com o que comer, nem amor, nem nada? era a pátria, a famigerada pátria, com as suas idéias decorrentes. Que diabo, afinal, era ela? Um Deus, como outro qualquer. Uma criação subjetiva, já sem utilidade, já sem valor, Se eu nascesse no século XIV, russo, como eu era, Odessa seria minha pátria? Se a Sibéria deixasse de ser russa e passasse a ser mongólica ou tártara, a Rússia morreria? Que diabo de existência era essa que não se mutila, que cresce ou diminui conforme os conquistadores são mais ou menos felizes? Eu, ia ali, naquela miserável terceira classe, sofrendo frio, viajando num curral, por causa de uma deusa tão frágil?

Nós entramos no porto de Nápoles à noite. Havia luar, um grande luar que enchia tudo e dava à famosa baía um toque deliciosos de imaterialidade. Íamos sofrer transbordo e à espera dele passamos a noite toda.

Não lhes falarei de Nápoles, lugar clássico na terra, tão falado e tão descrito que é inútil tentar dizer qualquer coisa de novo sobre ele. Passamos, afinal, para o paquete que nos devia trazer diretamente ao Rio de Janeiro. Se a terceira classe daquele em que vim de Odessa era sórdida, agora aquela do navio em que estava era mais sórdida.

Éramos mais de quinhentos homens, mulheres e crianças, misturados nos beliches, amontoados como galinhas numa capoeira. A comida era uma infâmia; a sentina não se descreve; e nós tínhamos que passar aí bem quinze dias ou mais.

Na maioria eram italianos; mas havia alguns russos, uns poucos de armênios e meia dúzia de gregos.

Não nos entendíamos e vivíamos em grupos conforme as nossas nacionalidades. A judia Irma também viera e logo que deixamos os portos espanhóis e entramos em pleno Atlântico, ela pareceu ganhar um pouco de alegria, uma certa esperança, e, como que seus olhos, debaixo das suaves arcadas das suas sobrancelhas negras, viam na linha fugidia do horizonte a felicidade e a satisfação.

Perguntei-lhe se ia para o Rio de Janeiro ou para Buenos Aires, pois eu já começava a compreender a geografia da América do Sul. Fiz-lhe a pergunta e ela me respondeu muito naturalmente:

— Vou par Buenos Aires. Quando estiver um pouco estragada, irei para o Rio de Janeiro.

O mar tenebroso dos navegantes da Renascença foi atravessado por nós. Dir-se-ia que eles temeram em vão; estava espelhento que nem um lago, e doce e tranqüilo.

Eu que não conhecia quase a história daquelas águas nem das terras que elas banhavam, só me lembrava que aquele era o mar da escravidão moderna, o mar dos negreiros, e que assistira durante três séculos aquele drama de sangue, de opressão e de saque, que foi o aproveitamento das terras da América pelas gentes da Europa.

Pensei comigo que em presença daquelas altas manifestações da natureza só me vinham pensamentos tristes e, longe de ter a esperança natural do emigrante, de riqueza e abastança, ia-me n’alma o mesmo desespero que tinha em Odessa.

A viagem fez-se sem incidentes, a não ser um curioso e eloqüente para a vida da terceira classe dos vapores.

Dois emigrantes italianos casados que dormiam no mesmo beliche, certo dia deixaram-se ficar até bem tarde no convés, bebendo; e, quando desceram, semi embriagados, trocaram de beliches e dormiram com as mulheres trocadas.

Ao amanhecer, dando pelo engano, cada um atribuía alo outro o intuito de traição:

— Patife! Canalha! — dizia um.

O outro retrucava:

— Canalha! Patife!

E toda a população do paquete acudiu para ver tão estranha disputa. Embora os dois homens estivessem ferozes, toda a gente achava no acontecimento motivo de hilaridade e os comentários eram nesse sentido. Dizia um gaiato:



(continua...)

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