Por Aluísio Azevedo (1895)
Estavam já no penúltimo ato, em meio do grande dueto de Raul de Nangis e Valentina; Branca não despregava o binóculo da cena e parecia arrebatar-se com a magia daquela música suprema e apaixonada; os seus desgostos, as suas profundas mágoas de amor, acordavam todas, uma por uma, no fundo de sua alma; e, quando o tenor soltou a última frase do dueto, uma lágrima brilhou nos olhos dela e um longo suspiro desdobrou-se-lhe nos lábios.
Só então, despertando do seu enlevo, atentou para Afonso, que a devorava com a vista.
- Como sofre... disse ele entredentes, não tão baixo, porém que a prima não o ouvisse.
Ela balbuciou ainda uma frase de desculpa, mas o rapaz acrescentou em segredo:
- Para que há de esconder de mim os seus sofrimentos? Julgará que é de hoje que os observo e acompanho?... Melhor faria, minha prima, em derramá-los no meu coração, porque só os que também sofrem poderão compreende-los e...
- Eu é que não compreendo... respondeu Branca, fazendo-se muito séria.
- As palavras de um bom amigo só não as compreende quem de todo não quer.
- Nesse caso repita-as a Teobaldo, que ele as compreenderá melhor do que eu.
- Duvido.
- Não acredita então na amizade de meu marido?...
- Não.
- Como assim?
- Teobaldo não estima a ninguém. Ele só cuida si, só pensa na sua própria pessoa, só desi se preocupa.
- Não é isso o que meu primo costuma dizer a respeito dele.
- Ah! certamente, porque desejo engrandecê-lo aos olhos de todos.
- Mas então com que fim?
- Com o fim de ser - para ele - útil e para a prima agradável.
- Pretende então agradar-me?
- Decerto, visto que sou seu amigo.
- E como, se é meu amigo, procura convencer-me de que Teobaldo não estima a ninguém?... Esquece-se, meu primo, porventura de que, se eu chegasse a acreditar em semelhante falsidade, seria a mais infeliz das mulheres, porque adoro meu marido e suponho ser amada por ele?
- Se a prima acreditasse no amor de Teobaldo, não sofreria como sofre.
- Quem lhe disse que eu sofro?
- Diz-me tudo: dizem-me as suas lágrimas mal disfarçadas, a sua melancolia, os seus suspiros; dizem-me esses pobres olhos entristecidos e queixosos!...
Branca abaixou as pálpebras instintivamente, e o rapaz, aproveitando o efeito daquelas palavras, acrescentou:
- Quando uma mulher é correspondida no seu amor, toda ela resumbra contentamento e felicidade; de cada beijo que dá ou recebe da pessoa amada, fica-lhe na alma o gérmen de um sorriso e não da lágrima, que ainda há pouco lhe vi saltar dos olhos.
- Mas, quando assim fosse, retorquiu a senhora, dada a hipótese de que com efeito tenho qualquer motivo para sofrer, que lucraria eu em confessá-lo?
Que lucraria? oh! lucraria muito! Lucraria em desabafar, lucraria em dividir com alguém a sua mágoa!
- Não! Isso só se pode fazer com um ente, um único, quando o possuímos, e eu o possuí tão pouco!..
- Quer falar de sua mãe?
- É verdade.
- E não se lembra de que eu, por bem dizer, sou seu irmão, que a vi pequenina e que me habituei a estimá-la e a respeitá-la, como se tivéssemos bebido o mesmo leite materno?...
- Mas que lhe podem interessar meus desgostos? São tão íntimos... tão meus !...
- Por isso mesmo me interessam, porque eles são muito seus. Oh! era preciso não ser seu amigo, seu companheiro de infância, seu irmão, para não me interessar por eles, como me interesso por tudo que lhe diz respeito!
E chegando-se ainda mais junto dela:
- Juro-lhe, minha prima, que, apesar da tremenda decepção que sofri com o seu casamento, apesar de a ter desejado ardentemente para minha esposa, só a idéia de que Teobaldo faria a sua felicidade levou-me a esquecer tudo! Nunca mais a possuiria, é exato; nunca mais a vida seria para mim outra coisa mais do que a morte sem as regalias da morte, sem o descanso, sem o esquecimento e sem a dor; consolava-me, porém, a idéia de ter contribuído para a ventura daquela que eu idolatrava, daquela que foi a única mulher que amei, que amarei sempre! E contava. pois, que, em a vendo satisfeita e alegre, eu teria também, do fundo da minha desgraça, o meu quinhão de alegria! Vendo-a gozar, eu gozaria também! Ah! mas quando dei pelo procedimento de seu marido; quando descobri que ele covardemente a enganara, fazendo-lhe acreditar que a amaria por toda a vida; quando cheguei a compreender qual fora a verdadeira intenção daquele miserável, arrancando-a brutalmente da casa paterna; ah! então, confesso-lhe, minha prima, transformei-me todo; confesso-lhe que senti indignação tão grande como seria a indignação de seu pai, se ainda vivesse!
- Meu pai! Oh! não me fale nele, por amor de Deus!
- Sim, seu pai, que juntou a vida ao dote cobiçado pelo seu raptor.
- Meu primo!
- Perdoe-me! Deixe-me desabafar por uma vez, que estou cansado de reprimir a minha indignação! Juro-lhe que, se Teobaldo fosse um bom marido, teria em mim um amigo para a vida e para a morte; mas, fazendo-a sofrer, desprezando-a como a despreza, desdenhando de todas essas virtudes e de todos esses encantos que a prima possui como nenhuma outra mulher no mundo, preferia vê-lo atravessado por uma bala!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.