Por Aluísio Azevedo (1897)
Principiou então para ele e para Genoveva uma existência toda de dificuldades. A botica pedia dinheiro, a moléstia queria dieta, e os recursos não chegavam. A mulher atirouse ao trabalho, tomou encomendas de roupa para lavar, lavou com talento, com coragem e com alma; o que aliás, nada é de estranhar, se nos lembrarmos de que a avó da viúva do comendador Moscoso, conforme dizia esta ao próprio marido, tinha sido no seu tempo a melhor lavadeira do Rocio Pequeno.
Quem puxa aos seus não degenera.
E, ou fosse por atavismo, ou porque a necessidade é o melhor mestre de ofício, o certo é, que Genoveva, a esfregar roupa, agüentava a casa, mantinha no colégio uma pupila, com quem em breve travará o leitor muito boas relações, e acudia com remédios à moléstia do seu homem.
A velha Benedita, essa é que tivesse santa paciência, mas o tempo não estava para caridade!... Que fosse bater a outra freguesia!..
E ela obedeceu, coitadinha! E lá foi bater à porta de Gaspar.
— Descanse, disse este, quando a velha terminou o seu longo aranzel. Não é necessário que peça esmola; recolhase cá em casa, que nada lhe faltará. Olhe! entre, e a criada lhe dará um cômodo. Vá, vá entrando.
Benedita já se havia levantado.
— E o meu Chimboraso, pode vir comigo? perguntou ela.
— Que vem a ser esse Chimboraso?...
— É o meu cão, Sr. doutor; um diabo de um bicho, que faz uma criatura gostar dele...
E o rosto engelhado de Benedita iluminouse de alegria com a lembrança daquela sua última afeição.
— Animalito de Deus! Ah! ela havia de mostrálo ao Sr. doutor!
— Pois que venha também o Chimboraso, disse o médico, procurando terminar a conversa.
E como a velha tentasse com muita dificuldade pôrse de joelhos:
— Então? deixemonos disso; vá ver o seu cômodo, vá entrando, vá!
Benedita, sem dizer uma palavra, procurava beijarlhe a mão.
— Ora, não, não! opunha Gaspar, a empurrála brandamente para o interior da casa. Vá! vá descansar!
— Ela obedeceu, agradecendo muito a esmola que recebia, e prometendo não se esquecer de Gaspar nas suas orações.
Já na porta, parou, e voltouse para dizer:
— É que eu tenho tamanho medo de não resistir ao desamparo!... Quando penso na morte, fico toda fria: Oh! não quero a cova!
Gabriel olhou para ela com surpresa.
— A morte!... que terrível cousa deve ser a morte. E a velha fezse mais lívida. Quanto deve custar a uma criatura sair desta existência para ir meterse debaixo da terra, num buraco! Ficar a gente fria, dura como um pedaço de pau, à espera que as carnes criem bicho, que os bichos nos chupem até fazer o osso limpo! Oh! deve ser terrível! Que medo me faz a morte!
E depois de uma pausa, acrescentou com o olhar fito:
— Bem sei que pouco vale a vida. Isto tudo é miséria, isto tudo é engano, isto tudo é sofrer, mas em todo o caso não é a morte, não é o buraco na terra! Que bela cousa é a vida! Já não tenho olfato, nem paladar; já quase não posso ver; já não gozo amores, e, contudo, faço muito gosto neste restinho de vida. Nada! assim mesmo velha, assim mesmo que não presto, quero a minha rica vidinha, quero ver isto por cá! Para morrer, todo tempo é tempo! Viva a galinha com a sua pevide!
E, com um riso do outro mundo, a velha saiu afinal, cantarolando e tremendo.
Gabriel ficou por muito tempo a olhar para a porta por onde ela saiu.
— Feliz destroço!... disse ele. Que inveja me faz a tua miséria!
XXXV
O BOÊMIO
Gustavo, o sobrinho de Gaspar a este confiado por Paulo Mostella, vinha a ser o resultado daquela adiantada gravidez em que se achava Virgínia, quando a vimos em Pernambuco, nos últimos tempestuosos dias da árdega existência de Violante; o que quer dizer que vinte anos são decorridos depois disso, e que o Médico Misterioso está agora por conseguinte orçado pelos cinqüenta, e Gabriel com a metade dessa idade.
Gustavo era um belo moço no seu tipo nortista. Altura regular, boa saúde, olhos inteligentes, palavra fácil e riso pronto. Tinha o gênio arrebatado, mas o coração generoso e meigo, caráter desregradamente altivo e chapeado de fortes aspirações morais.
Chegara ao Rio de Janeiro com todas as doidas e perfumadas ilusões dos seus vinte anos, cavalgando, descalço e sem esporas, uma nuvem de sonhos e de esperanças.
Fora morar com o tio, mas logo ao fim de poucas semanas declarou abertamente que não podia continuar a viver do pão alheio e preferia aventurarse lá fora, por sua conta, na luta pela existência. Embalde empregou o Médico Misterioso todos os meios para dissuadir de semelhante loucura, e embalde Gabriel juntou suas razões às do padrasto: "Gustavo nessa época apenas ganhava quarenta milréis mensais, como noticiarista de um periódico de vida não menos incerta que o referido ordenado, e, com magros recursos, iria sem dúvida sofrer por aí torturantes e ridículas necessidades!" Foi, porém, tudo inútil, e o sonhador mudouse, com a sua nuvem corderosa, para a companhia de dois estudantes de medicina, igualmente pobres e não menos gineteadores de ideal.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.