Por José de Alencar (1872)
E o moço ficava enlevado a admirar a esplêndida formosura, não podendo crer que Deus houvesse formado aquela sublime criatura e a conservasse imaculada no regaço do céu, para enviá-la de repente a ele, como um anjo, que o inundasse de felicidade. Mas interrompendo um instante o afã, ajoelhava para admirar a peregrina imagem. “Erguei-vos, dizia-lhe a moça. Meu senhor não há de calcar o pó da terra. Tenho riquezas sem conta para dar-lhe. Quero ser querida em um palácio, entre as magnificências do luxo, cercada de tudo quanto seduz e deslumbra. Quero ser amada assim para que, no meio de todos esses esplendores, ele só busque meus olhos, só deseje meu sorriso.” Desfraldando as asas, a imaginação de Ricardo bordou sobre o gracioso tema um desses arabescos orientais, cheios de encantamentos e fascinações, como são os contos árabes.
Quando ele surpreendeu-se no meio desse devaneio, teve um remordimento; e para fugir aos enlevos da fantasia, asilou-se nas recordações das puras afeições da família e dos santos amores de sua infância.
Tomou a pena e escreveu a Bela a carta que este lera à janela, na hora da ave-maria; depois conversou longamente com sua mãe, em duas folhas de papel, renovando as reminiscências dos tempos que tinham passado juntos em São Paulo antes da separação.
No dia seguinte recomeçou Ricardo a lida do escritório; e o trabalho, que é o mais forte detersivo do coração, apagou os vestígios da alucinação que sofrera. Todavia, quando uma circunstância lhe recordava Guida, sentia-se o mancebo tomado por um terror indizível, e estremecia com a idéia de cair outra vez no sonho, ou antes no pesadelo d’ouro, que já uma vez fizera presa nele.
Antes de findar a semana, estando Ricardo em seu escritório, recebeu do carteiro sua correspondência de São Paulo. Dentro da carta de D. Benvinda, que dava notícias de todos os seus, achou uma de Bela; e guardou-a para a ler em casa, a sós, sem risco de o interromperem.
Avalia-se do espanto de Ricardo ao ler estas poucas linhas:
“Meu primo.
Um pressentimento, que não engana, diz-me que sou um obstáculo em sua vida; e portanto o meu dever é afastar-me para que você possa livremente seguir a brilhante carreira que lhe prometem seus talentos e virtudes.
Outra, mais prendada e escolhida por Deus, fará sua felicidade, oferecendo-lhe toda a sorte de alegrias e encantos, que eu não poderia dar, eu que apenas tenho um coração. Esse o acompanhará de longe com seus votos; e creia, meu primo, que outros não haverá mais ardentes pela sua ventura.
Desde que nos separamos, meu querido pai insta para que aceite uma união, que ele sempre desejou. Ocultei-lhe este segredo de família para não afligi-lo, em compensação de tantos sacrifícios que você aí sofria só; era justo que tomasse para mim unicamente essa contrariedade.
Enquanto me julguei necessária à sua felicidade, tive forças para resistir a meu pai; agora faltam-me, e também o direito de opor-me à sua vontade, e recusar o destino traçado por ele, quando outro não me resta, nem eu tenho mais que esperar do mundo.
Quando receber esta carta, já estará partido o vínculo que nos unia; pois vou dar a meu pai o consentimento que me pede há tanto tempo. Sua prima e amiga
Isabel Lopes
20 de agosto de 1871.”
Por diversas vezes, Ricardo retrocedeu ao princípio da carta e releu os períodos, para compenetrar-se do pensamento, que exprimiam essas palavras. A surpresa e pasmo produzidos por tão inesperado teor tinham-lhe embotado a compreensão; com os olhos fitos no papel, havia momentos em que não via as letras, ou vendo-as, não sabia soletrálas.
Passado o primeiro abalo, quando o mancebo pôde coligir as idéias e refletir sobre o caso, sua mente procurou naturalmente a a explicação do estranho acontecimento; e certo de a ter encontrado, deleitou-se em passá-la e repassá-la no espírito. Foi um consolo.
Para Ricardo a carta de Bela não era senão um engenhoso meio de justificar sua ingratidão e perfídia. Cansada de esperar, a moça de coração volúvel, resolvera casar com o Felício Lemos, que além de arranjado, estava à mão. A indignação do mancebo, a revolta do seu caráter em face de tal procedimento, sobrepujou a mágoa de se ver esquecido, e a dor de perder as mais doces ilusões de sua vida.
- E foi por essa mulher, que eu recusei um coração virgem, e o futuro mais brilhante que podia sonhar em meus arroubos de imaginação!
À noite Ricardo saiu à procura de Fábio, a quem encontrou na Rua do Ouvidor. Conseguiu trazê-lo à casa, para mostrar-lhe a carta de Bela, e vazar em seio amigo a exuberância de sua alma.
Fábio informou-se do que havia, tratou o ocorrido com a sua habitual leviandade, consolando Ricardo dessa insignificante derrota, que às vezes, dizia ele, era o princípio dos mais esplêndidos triunfos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.