Por José de Alencar (1875)
O capitão-mór desprendera o seu grosso e pesado riso.
— Então foste tu, pirralho?… Ora já viram!
— Não foi êle não, meu pai! acudiu Flor, que havia caído em si. Eu estava brincando!
— Que não foi êle, bem o sei, e ainda bem, que essa graça lhe custaria a pele e os ossos.
Fôra o prodigioso da emprêsa que salvara Arnaldo. Se para um homem forte já a consideravam desmarcada, como acreditar que a praticasse um menino?
Arnaldo não dirigiu a Flor a menor exprobração. Foi a menina que, desvanecido o susto, aproximou-se dele prara dizer-lhe em segrêdo:
— Você ia morrendo por minha causa, Arnaldo.
O rapazinho fitou nela os olhos.
— E por quem hei de eu morrer, Flor?
A menina corou e esteve todo êsse dia preocupada.
Por essa época morreu o Louredo. Tinha êle feito uma pequena ausência na fazenda; na volta deitou-se como de costume em sua rede, embrulhou-se nela e no dia seguinte acharamnomorto.
Arnaldo sofreu profundamente com êste golpe. Todos os sentimentos dêsse menino tinham a pujança e energia de sua organização, o amor como o ódio, a ternura como a ira, eram nele paixões violentas, veradeiras irrupções d’alma.
Pouco depois completou Flor quatorze anos; e desde então um impulso natural começou a separá-la da companhia e intimidade em que até alí vivera com Jaime e Arnaldo. O instinto feminino que desenvolvia-se com a adolescência, inspirava-lhe o recato. Já não se animava a passear só pelo mato com o primo ou o colaço, nem consentia que êles a suspendessem nos braços, como faziam outrora.
Não pensava ela que houvesse algum mal nesses folguedos a que se entregava dantes com tanto prazer; mas agora causavam-lhe uma perturbação, que de certo modo ofendia a sua altivez nativa. Porisso esquivava-se às excursões e passeios, demorando-se mais ao lado de sua mãe, para fazer-lhe companhia.
Alina, que tinha gênio mais romanesco, inventava aventuras caseiras, para substituir as travessuras campestres.
Na novela ou auto da loura menina, Flor vinha a ser princesa ou rainha, cuja formosura enchia o mundo com sua fama, e cuja mão era pretendida por todos os príncipes cristãos. O mais belo, e também o mais bravo dêsses campeões, era o príncipe por excelência, representado na pessoa do sobrinho do capitão-mór.
Ora, a princesa tinha sua dama, assim como o príncipe devia ter seu pagem. Êsses dois papéis tocavam a ela Alina e a Arnaldo, parecendo-lhe de razão que os criados fiéis se reunissem como acontecia nos romances pelo mesmo sentimento que prendia os amos, de modo, que em vez de um, houvesse dois casamentos. Êste desfecho, porém, a autora não o divulgava, deixando que o fio dos acontecimentos o inspirasse.
Tal era o quadro da novela imaginada por Alina. Teve, porém, de sofrer duas alterações. Flor não admitiu Jaime como pretendente à sua mão e assinou-lhe o papel de príncipe irmão. Quanto a Arnaldo era um pagem sempre ausente, em recados, e que só figurava na imaginação da órfã. O vaqueirinho ignorava completamente o romance de Alina, e vindo a sabê-lo, é de crer que não tolerasse o papel subalterno que lhe haviam distribuído, além de comprazer-lhe mais a solidão da floresta do que o terreiro de casa.
Era aos domingos que se faziam as representações da novela, sempre dirigidas por Alina. Em uma dessas condescendeu Flor com os rogos da companheira, e consentiu figurar de noiva. Inprovisou-se então um oratório; arvorou-se uma rapariguinha em padre, vestindo-se-lhe uma saia preta atada ao pescoço, e começou a cerimônia.
Apresentou-se D. Jaime, como campeão vencedor em um torneio imaginário; exaltou suas proezas e a formosura de D. Flor. Depois do que, oferecendo o braço à princesa, avançaram os dois com passo de procissão. Alina, como dama da princesa, carregava a cauda de seu manto real; seguiam-se uma guarda de honra composta de uns seis meninos montados em cavalos de talos de carnaúbas, armados com espadas de taquara, e um bando de crianças de todas as côres e tamanhos, crias da fazenda, endomingados especialmente para essa festa. No coice vinha a velha Filipa fazendo mil visagens.
O préstito devia dar duas voltas ao terreiro para dirigir-se ao altar. Ao começar a segunda, apareceu Arnaldo, que trazia um casal de jaçanãs para Flor. Dando com a procissão parou surpreso, e compreendeu logo a natureza do brinquedo, que os outros aliás trataram logo de explicar.
Esteve o menino uns instantes perplexo; de repente saltou sôbre Jaime, separou-o de Flor, atirou com êle no chão arrancando-lhe as fitas de que vinha enfeitado; correu depois ao altar que deixou em destrôço; e sumiu-se.
Passou fora oito dias.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.