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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Senhor...

– Falemos com clareza: não ignora que amo a sua sobrinha.

– Sei ao mesmo tempo que minha sobrinha não o ama.

– É verdade; disse com sangue frio imenso Salustiano, E se eu tivesse podido agradar à “Bela Órfã”, acredite V. Exa. que dispensava completamente a sua intervenção.

– E não tendo podido agradar-lhe, senhor, a minha intervenção será sempre improfícua.

– Tenho a certeza do contrário,

– Estou hoje convencida de uma verdade que V. Sa. adivinhou antes de todos; minha sobrinha já ama.

– É uma dificuldade, convenho, mas...

– Quereria por acaso ligar-se a uma senhora que amasse a outro?...

– Sua digna sobrinha, minha senhora, tem a educação da virtude.

– Oh! mas a educação da virtude abafa, porém não mata nunca o amor! a mais nobre, a mais pura das virgens que se desposasse com um homem, amando ao mesmo tempo a outro, sem querer, a despeito de esforços inauditos, seria infiel na alma a seu esposo.

– Mas uma virgem cristã...

– Uma virgem cristã não desposa o homem que não ama. Deus proíbe esses laços sem nobreza. São laços ilegítimos. Em tal caso, ou não há verdadeiro casamento, ou o casamento é um sacrilégio.

– Quantos sacrilégios tem portanto havido neste mundo?... disse Salustiano.

– Não é uma razão para que continue a havê-los,

– Pode ser que V. Exa. tenha toda razão; tornou o moço descansando uma perna sobre outra. Mas o pior é que, ou eu me engano muito, ou me acho desesperadamente apaixonado; e conseguintemente surdo à voz da razão, cego à luz da verdade, vinha dizer a V. Exa. que eu teria o maior prazer deste mundo se no dia do seu casamento se assinassem as escrituras do meu.

– Creio que não conseguirá o que pretende. Minha sobrinha é mais forte e decidida do que parece, e meu pai ama-a muito para querer sacrificá-la.

– V. Exa. nada fará por mim?...

– Eu não posso fazer nada.

– Sejamos francos, minha senhora; pela última vez, sejamos francos; demos cartas para jogarmos a última partida.

A voz de Salustiano tinha mudado de tom, como seu rosto tomara uma expressão fisionômica toda nova, era o senhor que se erguia diante da escrava.

No semblante de Mariana apenas uma ligeira contração dos músculos labiais atraiçoou seus padecimentos interiores.

– Sejamos francos, disse Salustiano; eu sei que a minha presença nesta casa é incômoda a todos; sei que seu pai me aborrece, que sua sobrinha me despreza e que a senhora me odeia como a vítima odeia o algoz.

Mariana não pronunciou uma só palavra, não fez mesmo o menor sinal, o mais leve movimento para desmentir Salustiano.

O mancebo prosseguiu:

– E no entanto, senhora, tudo parece ser disposto por um poder superior para que eu me ligue a esta casa.

– Poderes superiores, senhor, concebem-se de diversas naturezas, observou Mariana.

– Um feliz acaso, já o tenho dito muitas vezes, continuou Salustiano, pôs a mais soberba e orgulhosa das mulheres sob a dependência do mais fraco e humilde dos homens.

– Que humildade!...

– Mas tudo devia ser compensado; e assim como esse feliz acaso me deu aqui o caráter de senhor, o meu coração e o meu amor me faz curvar a cabeça como um escravo.

– E o que mais? o que mais?...

– Eu vim mesmo encontrar nesta casa recordações da minha infância. Há alguns meses um velho ocupa aqui o lugar de guarda-portão, e esse velho, senhora, viu-me nascer, viu-me crescer, e apenas depois da morte de meu pai deixou a minha casa.

– É possível?! exclamou Mariana. Um traidor! um espião!...

– Não; nada de injustiças, respondeu Salustiano. Eu e esse homem não fomos, nunca, amigos; e, além disso, acho-me hoje no caso de poder dizê-lo, porque tenho sabido velar por meu amor. O velho Rodrigues é protetor do jovem Cândido; ele entra todos os dias no “Purgatório-trigueiro”, e, ou o ciúme não sabe adivinhar segredos, ou esse maldito velho tem concebido o pensamento de ligar o seu protegido à “Bela Órfã”.

– Enfim, senhor...

– Enfim, senhora, estamos hoje dependendo um do outro: somos dois furiosos inimigos, que uma dependência mútua pôde tornar amigos devotados. Uma palavra diz tudo: um documento por uma mulher, senhora!...

– Que audácia!...

– Trocaremos, no mesmo dia, a mão de uma jovem bela por meia folha de papel de peso.

– Que sarcasmo!...

– Oh!... mas não é simplesmente meia folha de papel de peso! é um nome que se pode atirar ao meio da rua... é uma reputação que se pode nodoar para sempre... – Senhor!...

– Escolha.

– É uma infâmia!...

– Embora; fará com que sua sobrinha seja minha esposa?...

– Nunca!

– Bem; vingar-me-ei.

(continua...)

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