Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Oh e para que agora queres ter de que abaixar o rosto?...
— Porque o coração de um moço, Félix, pode mais do que a sua cabeça!...
Otávio enxugou sofregamente o suor, que em bagas lhe corria da fronte; e continuou falando com ardor e precipitação.
— Tu sabes, Félix, o que é amar loucamente uma mulher?... compreendes o que é passar dias inteiros pensando nela, todas as noites velando por ela, todas as horas por ela suspirando?... eu mesmo não concebo o que é isso, que tem em si essa mulher para fazer-me delirar e esquecer meus negócios, meus prazeres, meu dever, e até minha honra!... mas eu sei que a amo como um louco, como um homem perdido!... eu sinto que este amor traz em si alguma coisa de tão abominável e infernal, que, por essa mulher, se eu fosse rei, me faria abandonar o trono, se eu fosse pai, amaldiçoar meu filho, se eu fosse sacerdote, renegar do meu Deus! Oh! Félix, Félix!... um amor como este é horrível e capaz de tudo! uma mulher como essa pode fazer de um homem virtuoso um ladrão ou um sicário! sim: se Honorina me dissesse — mata! eu creio que iria matar; se ela me gritasse — rouba! eu penso que iria roubar, ainda que estivesse certo de que um dia depois seria condenado à morte; mas contanto que de cima do patíbulo ganhasse um sorriso de gratidão de seus lábios!... oh!... pois essa mulher há de ser minha!... eu a quereria a preço de meu sangue! eu a quero mesmo a preço de meu nome e de minha honra!... eu a quero! eu a quero!... Otávio, que falava como possuído de violento delírio, pronunciou as últimas palavras quase sufocado.
— Mas é horrível, Otávio, disse Félix, pretenderes sacrificar-me à tua paixão!
— Eu sei, eu sei, mas já te disse que seria também capaz de matar e roubar. Tenho tentado tudo inutilmente: cerquei-a de atenções e de obséquios... e nem gratidão obtive; procurei mostrarlhe o como era extremoso e puro o amor que por ela sinto, e nem ao menos pude ser ouvido; expliquei-me mais claramente... falei-lhe em casamento... e Honorina repeliu-me!
— E seu pai?... por que te não diriges a seu pai?
— Félix, confesso-te com vergonha: há três dias que fui ajoelhar-me diante dele; pedi-lhe o sossego, a paz e a ventura de minha vida, pedi-lhe, enfim, a mão de sua filha. O Sr. Hugo de Mendonça pareceu inclinar-se a meu favor, sua mãe mostrou alegrar-se, ouvindo minhas proposições; Honorina foi chamada... consultou-se sua vontade... e ela disse que não! não!... diante de meu rosto!... e, portanto, não há mais esperança por esse lado... a esperança que me resta é uma só: em ti a tenho posto.
— Em mim não, Otávio; eu não poderei fazer nada.
— Podes, podes muito: eu exijo, e já disse uma vez, eu imponho! Tu ficaste, há perto de um ano, administrando, com plenos poderes, a casa de Hugo de Mendonça; eu sei que o velho e falecido Raul de Mendonça havia entrado em empresas arriscadas... tinha parte muito notável no contrabando de africanos; não podias tu, depois da morte deste, e na ausência de Hugo, entreter ainda as mesmas negociações?... para entretê-las não te era preciso contrair empréstimos?... e não seria, enfim, muito possível ser infeliz e perder tudo?... Félix, eu sei ainda que a casa de Hugo teve prejuízos e estremeceu...tenho a certeza de que estremece ainda... pois bem! passa-me letras...
Otávio, como para ver-se livre de um peso enorme, continuou, dizendo depressa: — Passa-me letras de grande valor... na importância de quarenta a cinqüenta contos de réis... escreve-as com datas atrasadas, que seu vencimento tenha lugar agora... e Hugo de Mendonça estará perdido para sempre, ou dar-me-á sua filha em casamento.
— E hei de assim, Otávio, pagar a meu benfeitor a dívida imensa em que lhe estou?... — Oh! não... não haverá nada: assustá-lo-ei apenas; se me der sua filha, no dia das núpcias declararei o nosso crime e obterei o seu perdão.
— Ele sacrificará primeiro todos os seus bens para pagar-te...
— O Sr. Hugo de Mendonça é muito honrado para querer pagar-me com a herança de seu sobrinho, de sua mãe e de sua filha.
— Mas tem a sua.
— Insuficiente.
— Lançar-me-á a pontapés para longe de sua casa...
— E eu te receberei na minha.
— Desonrado!...
— Tu te saberás defender: o contrabando, em que se achava empenhada a casa de Hugo, enriquece e empobrece com a rapidez do raio.
— O Sr. Hugo de Mendonça, quando deixou-me administrando sua casa, ordenou-me que pusesse termo a todas as negociações da Costa d’África, Otávio.
— Sim; mas poderiam haver antigos comprometimentos... e em tal caso...
— E como?... como explicar essa perda enorme?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.