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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

— Eu escutei o que você conversava, seu João! A mim não me cegam assim só! Você é fino, mas eu também sou! Você está armando casamento com a menina de seu Miranda!

— Sim, estou. Um dia havia de cuidar de meu casamento!... Não hei de ficar solteiro toda a vida, que não nasci para podengo. Mas também não te sacudo na rua, como disseste; ao contrário agora mesmo tratava aqui com o seu Botelho de arranjar-te uma quitanda e...

— Não! Com quitanda principiei; não hei de ser quitandeira até morrer! Preciso de um descanso! Para isso mourejei junto de você enquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saúde!

— Mas afinal que diabo queres tu?!

— Ora essa! Quero ficar a seu lado! Quero desfrutar o que nós dois ganhamos juntos! quero a minha parte no que fizemos com o nosso trabalho! quero o meu regalo, como você quer o seu!

— Mas não vês que isso é um disparate?... Tu não te conheces?... Eu te estimo, filha; mas por ti farei o que for bem entendido e não loucuras! Descansa que nada te há de faltar!... Tinha graça, com efeito, que ficássemos vivendo juntos! Não sei como não me propões casamento!

— Ah! agora não me enxergo! agora eu não presto para nada! Porém, quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo e agüentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra servia pra um tudo; agora não presta pra mais nada, e atira-se com ela no monturo do cisco! Não! assim também Deus não manda! Pois se aos cães velhos não se enxotam, por que me hão de pôr fora desta casa, em que meti muito suor do meu rosto?... Quer casar, espere então que eu feche primeiro os olhos; não seja ingrato!

João Romão perdeu por fim a paciência e retirou-se da sala, atirando à amante uma palavrada porca.

— Não vale a pena encanzinar-se... segredou-lhe o Botelho, acompanhando-o até a alcova, onde o vendeiro enterrou com toda a força o chapéu na cabeça e enfiou o paletó com a mão fechada em murro.

— Arre! Não a posso aturar nem mais um instante! Que vá para o diabo que a carregue! em casa é que não me fica!

— Calma, homem de Deus! Calma!

— Se não quiser ir por bem, ira por mal! Sou eu quem o diz!

E o vendeiro esfuziou pela escada, levando atrás de si o velhote, que mal podia acompanhá-lo na carreira. Já na esquina da rua parou e, fitando no outro o seu olhar flamejante, perguntou-lhe:

— Você viu?!

— É... resmungou o parasita, de cabeça baixa, sem interromper os passos.

E seguiram em silêncio, andando agora mais devagar; ambos preocupados. No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou se Bertoleza era escrava quando João Romão tomou conta dela.

Esta pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro. Ia pensando em metê-la como idiota no Hospício de Pedro 11, mas acudia-lhe agora coisa muito melhor: entregá-la ao seu senhor, restituí-la legalmente à escravidão.

Não seria difícil... considerou ele; era só procurar o dono da escrava, dizer-lhe onde esta se achava refugiada e aquele ir logo buscá-la com a polícia. E respondeu ao Botelho:

— Era e é!

— Ah! Ela é escrava? De quem?

— De um tal Freitas de Melo. O primeiro nome não sei. Gente de fora. Em casa tenho as notas.

— Ora! então a coisa é simples!... Mande-a p’ro dono!

— E se ela não quiser ir?...

— Como não?! A polícia a obrigará! É boa!

— Ela há de querer comprar a liberdade...

— Pois que a compre, se o dono consentir!... Você com isso nada mais tem que ver! E se ela voltar à sua procura, despache-a logo; se insistir, vá então à autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas coisas, para serem bem feiras, fazem-se assim ou não se fazem! Olhe que aquele modo com que ela lhe falou há pouco é o bastante para você ver que semelhante estupor não lhe convém dentro de casa nem mais um instante! Digo-lhe até: já não só pelo fato do casamento, mas por tudo! Não seja mole!

João Romão escutava, caminhando calado, sem mais vislumbres de agitação. Tinham chegado à praia.

— Você quer encarregar-se disto? propôs ele ao companheiro, parando ambos à espera do bonde; se quiser pode tratar, que lhe darei uma gratificação menos má...

— De quanto?...

— Cem mil-réis!

— Não! dobre!

— Terás os duzentos!

— Está dito! Eu cá, pra tudo que for pôr cobro a relaxamento de negro, estou sempre pronto!

— Pois então logo mais à tarde lhe darei, ao certo, o nome do dono, o lugar em que ele residia quando ela veio para mim e o mais que encontrar a respeito. — E o resto fica a meu cuidado! Pode dá-la por despachada!

CAPÍTULO XXII

(continua...)

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