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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

E esta convicção torturava como o vício inconfessável. Repugnava­lhe o seu próprio coração, e sentia a sua alma debaixo dos pés, envergonhada e suja.

A idéia da responsabilidade moral principiava a querer entrar­lhe o espírito, e o desgraçado fugia dela por compreender que lhe faltava coragem para ser homem. Daí a sua atual e constante preocupação — o suicídio. A morte lhe parecia a única solução possível para o infernal dilema daquela sua triste vida. Mas o suicídio também era um grande enfado. Exigia esforço moral e físico. Era afinal um penoso trabalho tão aborrecido talvez como o próprio viver.

— Diabo! exclamou ele, sacudindo a cabeça, para sair de todo do seu pesadelo. Maldita a hora em que nasci!

Gaspar, que o observava, correu a conter­lhe o nervoso ímpeto.

— Que é?! Que tens?! perguntou em sobressalto.

— Nada! nada — Um ligeiro abalo... Passou!

Nessa ocasião, foram interrompidos pela criada:

— Lá fora estava uma velhinha pobre, que desejava falar ao Dr. Gaspar.

— Deve ser algum dos meus doentes, disse o médico, e mandou que a fizessem entrar para o consultório.

Era a velha Benedita, a mãe do cocheiro Jorge, que andava a tirar esmolas pelas casas conhecidas. Gaspar não a reconheceu logo, mas, quando lhe ouviu o nome, a fez conduzir para a sala em que estava Gabriel.

A velha pediu licença de assentar­se, pousou no chão uma trouxa que trazia, e, gemendo a sua fraqueza deixou­se escorregar sobre uma cadeira.

— Ai! ai! suspirou ela, sorrindo, apesar do gemido.

E a pobrezinha de Cristo declarou que já não era senhora das suas pernas.

Estava muito acabada; a morte do filho e a fugida da neta apressaram­lhe a decrepitude.

Gaspar olhava para ela com ar compassivo e desconsolado. A mísera já quase nada restava de aparência humana; era uma fruta seca, lavada em risos de pedinte, a cara toda engrelhadina como uma castanha pilada, as ventas fungosas, e as orelhas bambas e em dependura que nem abalos tortulhos. A boca, inteiramente murcha e sem memória de dentes que a habitaram, não largava um só instante de remoer em seco, e a mandíbula inferior com tal ânsia se atirava à outra, que se diria querer devorá­la com as suas gengivas desbotadas e carcomidas. Por debaixo do queixo escorriam­lhe pelangas chochas e macilentas, e, através das farripas de coco que lhe ouriçavam a cabeça, transparecia­lhe o crânio, casposo e áspero como casco de cágado. Doía vê­la assim, indecorosamente desfeitiada de jeito humano, a agarrar­se com o seu último alento a esta terra onzeneira, a quem todavia bem pouco tinha ainda a pobrezita que restituir de si.

Gabriel não lhe tirava os olhos de cima. A mendiga, depois de muito tossir, vergada sobre a carcaça do peito, começou a falar com um vestígio de voz que lhe restava. Eram sons roufenhos, cheios de falhas e babujados de saliva.

— Que o senhor doutor não se enfadasse! Ela vinha pedir­lhe uma caridadezinha, e saber se porventura havia alguma notícia de sua neta...

Mas a idéia de Laura perturbou­a logo, e a coitada apertou ainda mais os olhinhos, espremendo em lágrimas a sua saudade por entre as remelosas pálpebras.

— Ah! só Deus sabe... só Deus sabe... dizia ela dificultosamente, quase sem se poder exprimir; o muito que tenho padecido! Quando Laura nos abandonou e meu Jorge, meu rico filho! me morreu, fiquei sem saber de mim!

— Mas, se me não engano, observou Gaspar com interesse, a senhora aboletou­se em casa de D. Genoveva e...

— É verdade! eu fui para casa de D. Genoveva; mas é que depois as cousas mudaram de figura... Desde que o Alfredo perdeu o emprego...

— Quê? Pois o Alfredo não continua empregado em casa do Windsor?

A velha sustentava que não; não sabia, porém, explicar os pormenores desse fato. Só o que podia afiançar é que o Alfredo estava muito mal.

E com efeito assim era.

Durante a moléstia de Eugênia, já o amante de Genoveva se queixava do peito e da garganta, mas não tinha ânimo para abandonar o patrão na delicada conjuntura em que este se achava. Agravaram­se, porém os seus incômodos, e viu­se Alfredo obrigado a não sair da cama. Por essa época, Eugênia faleceu, e o pai, inconsolável resolveu retirar­se do comércio brasileiro, e partir com o resto da família para a Inglaterra, donde lhe propunham arranjo de vida.

Ora, entre Alfredo e o sócio restante na casa, havia uma velha rixa, que de muito teria lançado aquele no olho da rua, se não fora a proteção do Windsor.

Uma vez retirado este da sociedade, Alfredo, ainda de cama, recebeu a despedida do emprego com o pequeno saldo de seus ordenados.

(continua...)

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