Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Sai um mocetão da academia de S. Paulo ou de Pernambuco, formado em Direito, e, se é nhonhô, isto é, se é filho, sobrinho ou parente chegado de algum senhor velho, de algum membro daquela classe de privilegiados que atiraram D. frei Antônio de Guadalupe da magistratura para o convento – se é nhonhô, disse, encarta-se logo na presidência de alguma província. Da presidência da província, salta para a câmara temporária, da câmara temporária pula para o ministério. Uma questão de três pulos dados em alguns meses; e em duas palhetadas e meia, o nhonhô, que não foi ouvir as lições de nenhum mestre, que não teve noviciado, nem tempo para ler mais do que os prólogos de alguns livros, é declarado estadista de fama e salvador da pátria!
Como diabo se arranja esta magicatura?
Eu só lhe acho uma explicação.
Vivemos no século do vapor, e atualmente tudo se faz a vapor, até mesmo os estadistas e os salvadores da pátria.
E é também por isso que o Brasil vai a vapor. Para onde? Não sei. Só Deus o sabe.
Em D. frei Antônio de Guadalupe teve o bispado do Rio de Janeiro um dos seus mais zelosos e beneméritos pastores.
Um dos grandes empenhos deste ilustre bispo foi moralizar e instruir o clero fluminense, e conseguiu-o em máxima parte, não admitindo ao estado clerical senão candidatos recomendáveis por seus costumes sãos e por sua vida honesta, não distribuindo empregos e honras senão aos que de uns e de outras se tornavam mais dignos pelo seu merecimento próprio. Não dando ouvidos nem aos segredinhos da intriga, nem às solicitações do patronato, e não alimentando um só instante os ciúmes entre os padres nascidos em Portugal e os nascidos no Brasil, que, aliás, mutuamente se hostilizavam de um modo inconvenientíssimo.
Bastaria este procedimento para a glória e recomendação do nome de D. frei Antônio de Guadalupe. Ele, porém, fez mais, e deixou-nos em livros de pedra e cal a história dos seus eminentes serviços.
Para evitar que os eclesiásticos que fossem por seus delitos condenados à reclusão se misturassem com os seculares criminosos, para dar-lhes enfim uma casa de prisão especial, fundou o Aljube, para onde se transferiu a cadeia geral em 1808, e onde atualmente se reúne o tribunal do júri do município da corte.
Como prisão destinada exclusivamente aos padres, o Aljube tinha proporções tão vastas, que eu não sei mesmo o que pensava o bispo, quando o mandou construir.
D. frei Antônio de Guadalupe foi ainda o fundador do seminário episcopal de S. José, a que deu princípio em provisão de 3 de fevereiro de 1739, a benefício da mocidade e do Estado, e isentando-o da jurisdição paroquial.
Também ao mesmo bispo se deve a fundação do seminário dos órfãos de S. Pedro, que depois tomou o nome de seminário de S. Joaquim e, há alguns anos, passou a ser Imperial Colégio de Pedro II.
Enriqueceu com diversos presentes e dádivas algumas igrejas da cidade, e especialmente concorreu para a obra da igreja de S. Pedro com a avultada esmola de alguns mil cruzados, como já ficou dito, e depois doou, para o serviço e ornato do mesmo templo, diversas peças de prata.
De como pôde fazer tanta coisa em tão pouco tempo D. frei Antônio de Guadalupe, explica-se pelos milagres da solicitude, da energia e da dedicação.
Infelizmente para o Rio de Janeiro, D. frei Antônio de Guadalupe foi chamado para a mitra de Viseu. Embarcou-se, e saiu no dia 25 de maio de 1740, a bordo da nau Nossa Senhora da Glória, capitânea da frota. Chegando, porém, a Lisboa, morreu poucos dias depois de haver desembarcado, pois que exalou o último suspiro no dia 31 de agosto de 1740, nos braços dos seus irmãos, os religiosos do convento de S. Francisco.
Eis aqui o dístico com que o magistral cronista perpetuou a memória desse venerando bispo:
Templa Deo, purisque scholae me Praoesule, justis; Proemia dona malis proemia, carcer adeste.
Temos tomado conhecimento com o ilustre D. frei Antônio de Guadalupe, de quem, aliás, terei ainda de falar algumas vezes. Agora cumpre continuar a história da igreja de S. Pedro.
No presente passeio deixei lançada a primeira pedra da igreja de S. Pedro. E como ignoro o nome do arquiteto que deu o plano desse templo, e não tenho a referir circunstância alguma que ocorresse durante a execução do trabalho, julgo melhor dar desde já a obra por acabada, e conduzir os meus companheiros de passeio ao lugar em que essa igreja se levantou, e ainda hoje se mostra, como é de esperar que por muitos séculos se conserve.
Vamos, pois, subindo pela rua dos Ourives, que parece condenada a perder dentro em pouco o seu nome, ou pelo menos a razão do nome que recebeu. Porque é um fato que ela se vai despovoando de ourives. Chegamos, enfim. É aqui. A igreja de S. Pedro está situada na rua dos Ourives, canto da rua de... Como a chamarei eu?
É uma rua que tem tido pelo menos quatro nomes.
Em 1619, ou antes desse ano, chamava-se Rua do Carneiro, por
morar nela (entre as dos Ourives e da Quitanda) uma senhora muito respeitável e
estimável de nome Ana Carneiro.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.