Por José de Alencar (1872)
Mas a notícia de uma aventura galante, própria de um libertino, além de arranca-la à querida ilusão de ter sido o primeiro amor, lhe derramara n’alma uma agrura, como nunca sentira.
O caráter que até ali respeitara, descia de repente em seu conceito; e ela enchia-se de pavor quando sua imaginação, exaltada pelo sofrimento, lhe abria as profundezas insondáveis onde podia se precipitar o homem a quem ligara sua sorte.
Depois, por uma natural associação, recordando-se da intimidade de Linda com Miguel, no coração da mãe caíam as gotas acerbas que vazavam do coração da esposa. Pensava D. Ermelinda, que a filha criada por ela com tanto esmero, sucumbia à fatalidade e ia arrastada por um pendor irresistível, que o pai lhe transmitira de herança.
Assim como Luís uma vez deslizara da honra que pautara sempre os atos de sua vida, e a nobreza de seu caráter se eclipsara ante a sedução de uma moça, Linda cuja alma ela se comprazera em colocar numa esfera elevada, se inclinava a um rapaz de posição muito inferior.
E aqui a sua fantasia, convolvendo as torturas da esposa com ânsias de mãe, esvairava por modo que ela, espavorida de sua própria mente e não podendo sofreá-la, asilava-se contra esse delírio numa oração fervente a Nossa Senhora.
Luís Galvão, inquieto com a demora da mulher, a chamara; e, não recebendo resposta, veio acha-la na mesma posição.
- Que tem você, Ermelinda?
Estremeceu a senhora; e toda ela pulsou, como se a dor que tinha calcado dentro da alma se agitasse para refluir aos lábios. Mas a boca descerrando-se deixou escapar apenas um ofego, e ficou muda.
A palavra é estreita para dar passagem às mágoas amassadas no coração, quando se arremessam no primeiro ímpeto e de um só jato.
- Nada! respondeu D. Ermelinda.
- Por que não se deita?
Nesse instante repercutiu no aposento o som de três pancadas fortes, secas e breves, dadas rapidamente uma sobre outra.
Abriu Galvão a janela do canto, que ficava na ala direita do edifício, para observar o terreiro, donde viera o estrépito. Mas este cessara bruscamente com a última pancada; e o silêncio de todo se restabelecera.
Debruçando-se à janela, o fazendeiro lobrigou uma sombra que parecia resvalar ao longo da parede.
- Quem está aí?
Não houve resposta. Julgando ter-se enganado em tomar por vulto humano o vôo de um morcego ou qualquer outro pássaro noturno, ainda mais o convenceu disso um guincho de curiau, que estrugiu para o lado da senzala.
Não se enganara, porém, o fazendeiro. Foi de fato um homem, que se coseu à parede e se encaixou no vão de uma porta, onde permanecia imóvel e esticado para dissimular a saliência do corpo.
Tendo fechado por fora os pajens e capangas no repartimento que eles ocupavam, cuidou Faustino de impedir-lhes a saída por uma das janelas que não tinha grades. Para esse fim munido dos instrumentos necessários, encostou-se a ela para prega-la.
A esse tempo arrumava-se ao muro uma trouxa negra que avançara pelo terreiro aos pinchos como um sapo. Era o Monjolo que já havia furtado as chaves da senzala e vinha ter com o pajem.
O africano ruminava a idéia de suprimir desde logo o Faustino, a fim de lograr ele só os proventos do trama. Naquele curto instante correu o pajem sério perigo de que o salvou o rumor da janela ao abrir-se.
Afastando-se ligeiro para a senzala, soltou o Monjolo o guincho que tranqüilizou o fazendeiro, e entretanto era o sinal do trama sinistro.
Acabava Luís Galvão de correr o trinco da janela quando no canavial a primeira labareda se arremessou nos ares, enroscando-se como uma serpente de fogo.
XXII
A traição
Rolos de chamas envoltas em denso bulcão de fumo subiam aos ares.
A casa das Palmas e suas dependências, vistas de longe, pareciam submersas em um turbilhão de fogo, que surgia das entranhas da terra e convolvia-se pelo negrume do espaço.
Açoitada pelo vento, a labareda estorcendo-se e rabiando, rugia de sanha; ou sufocada um instante pelas abóbadas de fumaça e pelas camadas de palhiço, troava como um canhão, arrojando-se às nuvens.
De instante a instante ouvia-se uma descarga de fuzilaria, correndo ao longo daquela faixa incendiada que figurava a ala de um exército em renhida batalha. Eram os gomos das canas, que estalavam ao intenso calor do fogo.
Com os sibilos da labareda enroscada no ar, confundiam-se os silvos das cascavéis e jararacas, que surpreendidas pelo incêndio, arremessavam-se furiosas contra o fogo e rompiam estortegando pelo campo abrasado.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.