Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
AO TEMPO que o amor de Cândido e da “Bela Órfã” vacilava entre dúvidas, e ia vivendo a vida de todos os primeiros amores, ora animando-se com um sorrir de esperança, ora estremecendo diante de uma quimera, de um receio, ou de um fraco contratempo, caminhava o amor de Henrique e de Mariana ao seu desejado termo.
Poucos dias faltavam para que viesse o himeneu coroar aquela constância com que se haviam sabido amar os dois.
Aproximava-se a noite do dia em que o jovem do “Purgatório-trigueiro” despertara ao bramir da tempestade.
Sucedera a uma manhã feia e borrascosa uma tarde amena, fresca e bela. O céu estava claro, a atmosfera leve, a natureza em horas de magia.
Mariana achava-se só na sala do “Céu cor-de-rosa”; Anacleto saíra; Celina tinha ido despedir-se do dia entre as flores do seu jardim.
Meio deitada no sofá, em voluptuoso abandono, com os olhos quase completamente cerrados, com os lábios levemente dilatados pelo mais gracioso dos sorrisos, a interessante viúva contemplava em sua imaginação o quadro da ardente felicidade que a esperava; fruía de antemão todos os prazeres, todas as delícias com que durante tão longos anos debalde sonhara.
Seu mundo estava ali... dentro dela; dentro dela, em sua imaginação, reunia em belo grupo todos os entes que amava; conversava com eles, sorria para seu pai, recostada ao seio de Henrique.
Nem uma só nuvenzinha escura naquele imenso céu belo e sereno que estava criando; era uma dessas horas mágicas, que em vão se procura nos dias que se passa na terra, horas que se vive meio-dormindo, meio-acordado, quando se está só, e se está sonhando...
Era uma dessas viagens encantadas, viagens longas, de dezenas de anos e de milhares de léguas, que se faz com os olhos fechados, com o sorriso nos lábios, sem mudar de posição, e às vezes em uma só hora, em cinco minutos, ou mesmo em rápidos instantes.
Estava pois Mariana embebida naquele mar de gozos imensos, naquele mundo de abstrações deleitosas, quando...
Talvez mesmo passava nesse momento por diante de seus olhos a mais cara de suas imagens, porque ela apertou as mãos com indizível ardor contra o coração, e exalou um anelante suspiro, quando soou o rodar de uma carruagem que parou à porta do “Céu cor-de-rosa”.
A viúva soltou um pequeno grito e ergueu-se inopinadamente.
O mundo abstrato acabava de esvaecer-se; a realidade fria e pesada chegava.
O rosto expansivo e belo de Mariana contraía-se dolorosamente.
Tinha reconhecido o rodar daquela carruagem: aquela carruagem trazia-lhe um tormento sempre que parava junto do alpendre do “Céu cor-de-rosa”.
A porta da sala abriu-se.
– O sr. Salustiano! disseram.
– Que entre! murmurou a viúva.
E o rosto de Mariana tomou uma nova expressão; tornou-se frio, mas sossegado.
Salustiano entrou, e veio sentar-se junto da viúva.
Encontravam-se ainda uma vez a sós esse homem e essa mulher que se aborreciam tanto.
– Parece que um anjo benfazejo me protege, disse Salustiano. Sempre que desejo falar a V. Exa. sem testemunhas, uma ocasião própria se me oferece.
– Hoje então...
– V. Exa. se admirava talvez de me não ver há muito tempo, não é assim?... perguntou sorrindo o mancebo.
– Oh! não; respondeu secamente Mariana; V. Sa. deu-nos o prazer de passar conosco o último serão; foi ainda há dois dias.
– A resposta não parece das mais lisonjeiras; mas também é porque me não fiz compreender; eu dizia que V. Exa. talvez já se admirasse de me não ver procurar alguns momentos em que pudesse falar-lhe a sós.
– Também não. Pensava ao contrário que V. Sa. já tinha exigido de mim tudo quanto exigir podia, e que pela minha parte eu já me havia mostrado obediente demais.
– Demos que assim fosse; não quereria porém V. Exa. pedir-me a entrega de alguma coisa que julgasse pertencer-lhe?...
– Confesso que não pensava em tal. Confiava na sua honra, e julgava que não seria preciso pedir-lhe o que o dever ordenava a V. Sa. que me entregasse.
– Oh! mil vezes agradecido; V. Exa. pela primeira vez em sua vida parece acreditar na honra do mais humilde de seus escravos.
– Senhor... de que serve aqui a ironia?
– Já vejo, minha senhora, que conserva todas as suas antigas disposições; ama a verdade e a singeleza sobretudo.
– Entendamo-nos, senhor, disse Mariana com sangue frio. Devo crer que não foi simplesmente para zombar de mim, que teve a complacência de vir hoje a esta casa.
– Oh! não, por certo.
– Pois então fará o obséquio de explicar-se. Estamos sós. O que quer de mim ainda?...
– Primeiramente eu vinha depositar aos pés de V. Exa. os mais sinceros parabéns pelo seu próximo casamento.
– Agradecida.
– Oh! eu tenho uma inveja desesperada de um noivo de moça bonita.
Acreditará V. Exa.?... estou louco por casar-me.
– Felizmente para V. Sa. o remédio é fácil.
– Então aconselha-me?...
– Que se case.
– Esse é o meu desejo, certamente; e como em V. Exa. se concentra toda a minha esperança, eu não hesitei em correr a seus pés.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.