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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— E, portanto, ele deve também corar diante de mim!

O relógio marcou e deu dez horas.

Um servente de escritório bateu à porta do quarto de Félix e anunciou o Sr. Otávio. Um momento depois, a porta do quarto de novo por dentro se fechou, e Otávio e Félix sentaram-se defronte um do outro: ambos estavam pálidos, ambos trêmulos, ambos cabisbaixos. Passou-se muito tempo em silêncio; os dois mancebos pareciam temer olhar um para o outro; devia haver alguma coisa entre eles, que os envergonhasse a ambos.

Finalmente, Otávio pareceu tomar uma resolução; tornou-se extremamente corado e, erguendo os olhos, disse:

— E então, Félix?!

— Otávio, respondeu o guarda-livros levantando por sua vez o rosto; Otávio, tudo isto é muito horrível!...

— E, todavia, é inevitável!

— Inevitável?... oh!.. somente inevitável pode ser a nossa vergonha!... porque eu fui infame; e tu, Otávio... queres sê-lo!

— E qual de nós é mais desgraçado, Félix?...

— Eu.

— Não!... não!...

— Sou eu, Otávio; porque a desgraça está somente no crime!... e o crime é uma mão de bronze, que nos fecha para sempre a porta do próprio sossego!... e eu tenho ofendido a meus benfeitores... aqueles a quem devo tudo!... eu mordi-lhes em seu coração; e agora tu queres que lhes morda de novo?!... não! não! isso não! já padeço bastante...

— Mas esta ferida terá de fechar-se depressa; e depois eu poderei curar a outra... — Nunca! há feridas que jamais se fecham; porque a consciência dilacera o coração do mau a todo o instante...

O guarda-livros ergueu-se como desesperado e, apertando a cabeça com as mãos, exclamou:

— Meu Deus! meu Deus! meu Deus!

E depois, encarando Otávio, disse com voz comovida:

— E como te atreves, tu até agora puro e honrado, a vires propor-me uma infâmia... um crime, em que ambos teríamos parte igual?!

— Félix, é que não compreendes o que se passa em mim! não sabes o que é sofrer, como eu sofro!...

— E eu?... e eu?...

— Escuta: deixa-me começar bem de longe, bem do tempo da felicidade. Tu me conheces; fui sempre, como há pouco disseste, puro e honrado; desde a infância ligou-nos a mais estreita amizade; aos dezoito anos era eu guarda-livros da casa de meu pai, e tu primeiro caixeiro da do Sr. Raul de Mendonça; nós nos encontrávamos sempre; nas horas de descanso éramos inseparáveis; e meu pai, que me proibia todos os prazeres que a mocidade procura com tanto ardor, era o primeiro a animar nossa mútua afeição; e muitas vezes, falando-me de ti, dizia: — eis ali um menino, que há de ser alguma coisa e que deverá tudo à força de seu trabalho e ao valor de sua probidade!

— Basta, Otávio; não prossigas...

— Porém, é absolutamente preciso que eu avive todas essas idéias! e, pois, Félix, recordemos a noite terrível, que de meu igual te podia fazer meu escravo. Lembras-te?... eram dez horas, como agora; eu vim ver-te, e achei que a porta de teu quarto se achava fechada por dentro, também como agora; então, sem pensar no que fazia, instintivamente talvez, ou para zombar contigo, eu olhei pela fechadura... Félix!... havia dentro de teu quarto a prova de um crime, como também está havendo agora!

— Oh!...

— Não compreendendo ainda o que via, cuidando que seria um presente da fortuna, bati na porta; e senti que tu ocultavas o objeto que eu acabava de descobrir em tuas mãos; abriste-me a porta, Félix, e eu te encontrei pálido e desfigurado, como o estás agora!

— Não mais, Otávio!...

— Pedi que me explicasses a tua perturbação; disse-te o que eu tinha visto; e tu caíste a meus pés, implorando compaixão e segredo e gritando misericórdia!...

— Sim... mas tu tiveste piedade...

— Eu quis obrigar-te a desfazer o teu crime; porém, chorando arrependido, disseste que já era tarde, que outro havia sido considerado o perpetrador dele e como tal castigado, e que ficarias perdido se se descobrisse o fatal segredo. Cheio de remorsos, de joelhos a meus pés, abraçado com minhas pernas, tu me pediste que eu escondesse em minha casa a prova de teu delito, até que um dia te pudesses lavar dessa vergonhosa manha... eu hesitei... mas amava-te muito!... levei-a, ocultei-a e tenho-a comigo.

Félix escondera o rosto entre as mãos, tomado de vergonha e de remorsos. Otávio prosseguiu.

— Depois eu tive de sair por muitas vezes do Rio de Janeiro... graves e importantes empresas comerciais me tinham quase sempre longe desta cidade... não te encubro, Félix; se eu morresse, achar-se-ia entre os meus papéis a salvaguarda de minha honra; porque a minha honra era só o que eu não podia sacrificar à amizade. Enfim, faleceu meu pai, e hoje, herdeiro da sua riqueza e do seu nome, sou julgado feliz e digno de inveja; e até há bem poucos dias eu não achava na minha vida de que me envergonhar, senão de ser o depositário de um crime!

(continua...)

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