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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

João Romão deu-lhe noticia da morte do Agostinho e declarou que estava com dor de cabeça. Não sabia que diabo tinha ele aquela noite, que não houve meio de pegar direito no sono.

— Calor... explicou o outro. E prosseguiu depois de uma pausa, acendendo um cigarro: pois eu vinha cá falar-lhe... Você não repare, mas...

João Romão supôs que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e preparou-se para a defesa, queixando-se inopinadamente de que os negócios não lhe corriam bem; mas calou-se, porque o Botelho acrescentou com o olhar fito nas unhas:

— Não devia falar nisto... são coisas suas lá particulares, em que a gente não se mete, mas...

O taberneiro compreendeu logo onde a visita queria chegar e aproximou-se dele, dizendo confidencialmente:

— Não! Ao contrário! fale com franqueza... Nada de receios...

— É que... sim, você sabe que eu tenho tratado do seu casamento com a Zulmirinha... Lá em casa não se fala agora noutra coisa... até a própria Dona Estela já está muito bem disposta a seu favor... mas...

— Desembuche, homem de Deus!

— É que há um pontinho que é preciso pôr a limpo... Coisa insignificante, mas...

— Mas, mas! você não desembuchará por uma vez?... Fale, que diabo!

Um caixeiro do armazém apareceu à porta, prevenindo de que o almoço estava na mesa.

— Vamos comer, disse João Romão. Você já almoçou? — Ainda não, mas lá em casa contam comigo...

O vendeiro mandou o seu empregado dizer lá defronte à família do Barão que seu Botelho não ia ao almoço. E, sem tomar o casaco, passou com a visita à sala de jantar.

O cheiro ativo dos móveis, polidos ainda de fresco, dava ao aposento um caráter insociável de lagar desabitado e por alagar. Os trastes, tão nus como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de coisa nova.

— Mas vamos lá! Que temos então?... inquiriu o dono da casa, assentando-se à cabeceira da mesa, enquanto o outro, junto dele, tomava lugar à extremidade de um dos lados.

— É que, respondeu o velho em tom de mistério, você tem cá em sua companhia uma... uma crioula, que... Eu não creio, note-se, mas...

— Adiante!

— É! Dizem que ela é coisa sua... Lá em casa rosnou!... O Miranda defende-o, afirma que não... Ah! aquilo é uma grande alma! mas Dona Estela, você sabe o que são as mulheres!... torce o nariz e... Em uma palavra: receio que esta história nos traga qualquer embaraço!...

Calou-se, porque acabava de entrar um portuguesinho, trazendo uma travessa de carne ensopada com batatas.

João Romão não respondeu, mesmo depois que o pequeno saiu; ficou abstrato, a bater com a faca entre os dentes.

— Por que você a não manda embora?... arriscou o Botelho, despejando vinho no seu e no copo do companheiro.

Ainda desta vez não obteve logo resposta; mas o outro tomando, afinal, uma resolução, declarou confidencialmente:

— Vou dizer-lhe toda coisa como ela é... e talvez que você até me possa auxiliar!...

Olhou para os lados, chegou mais a sua cadeira para junto da de Botelho e acrescentou em voz baixa:

— Esta mulher meteu-se comigo, quando eu principiava minha vida... Então, confesso... precisava de alguém nos casos dela, que me ajudasse... e ajudou-me muito, não nego! Devo-lhe isso! não! ajudar-me ajudou! mas...

— E depois?

— Depois, ela foi ficando para ai; foi ficando... e agora...

— Agora é um trambolho que lhe pode escangalhar a igrejinha! É o que é!

— Sim, que dúvida! pode ser um obstáculo sério ao meu casamento! Mas, que diabo! eu também, você compreende, não a posso pôr na rua, assim, sem mais aquelas!... Seria ingratidão, não lhe parece?...

— Ela já sabe em que pé está o negócio?...

— Deve desconfiar de alguma coisa, que não é tola!... Eu, cá por mim, não lhe toquei em nada...

— E você ainda faz vida com ela?

— Qual! há muito tempo que nem sombras disso...

— Pois, então, meu amigo, é arranjar-lhe uma quitanda em outro bairro; dar-lhe algum dinheiro e... Boa viagem! O dente que já não presta arranca-se fora!

João Romão ia responder, mas Bertoleza assomou à entrada da sala. Vinha tão transformada e tão lívida que só com a sua presença intimidou profundamente os dois. A indignação tirava-lhe faíscas dos olhos e os lábios tremiam-lhe de raiva.

Logo que falou veio-lhe espuma aos cantos da boca.

— Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira a toa! exclamou ela. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então há de uma criatura ver entrar ano e sair ano, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para ao depois ser jogada no meio da rua, como galinha podre?! Não! Não há de ser assim, seu João!

— Mas, filha de Deus, quem te disse que eu quero atirar-te à toa?... perguntou o capitalista.

(continua...)

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