Por Aluísio Azevedo (1897)
— Tudo isso é um perfeito engano. Todo o homem precisa de trabalhar!... Quanto ao que possues, por mais que seja, não te chegará para gastares como gastas ultimamente. Lembrate de que já fizeste vinte e três anos, e se não acentuares agora o teu caráter, se não constituires a tua responsabilidade de homem, muito menos o conseguirás fazer mais tarde. Quero que mudes de vida, repito; quando já não seja por mim, seja ao menos pela memória de quem se vai enterrar hoje!...
— Calate! gemeu Gabriel, abaixando o rosto.
E nesse mesmo dia, ardendo em febre, abandonou o hotel "Provençaux", ao lado do padrasto que o reconduziu para casa.
Esteve de cama uma semana inteira, chegando a perigar de morte. Vertiginosamente girava o seu delírio entre dois pólos bem opostos — Ambrosina e Eugênia. Cada um destes dois nomes não lhe saía dos lábios senão para dar lugar ao outro.
Levantouse da enfermidade, não com a suave melancolia dos convalescentes, mas abatido e triste, como se no fundo do organismo lhe ficasse o vírus de um mal sem cura. Não tinha ele então desses momentos de inefável gozo de reviver, que são como o doce esvair de um crepúsculo entre a moléstia e a saúde; ao contrário, dirseia que o seu espírito, à medida que o corpo recuperava as forças, ia mais e mais se afundando em lôbregas cavernas de desalento. Negra hipocondria toldavalhe o semblante, varrendolhe dos olhos e dos lábios os derradeiros sorrisos.
Meses depois estendido numa chaiselongue, pés cruzados sobre a mesma, charuto ao canto da boca, olhos espetados no teto, quedavase havia meia hora, silencioso e esquecido da presença do padrasto.
— Mas enfim... perguntou este, batendolhe no ombro; que decides?..
— Hein? balbuciou Gabriel.
— Vais ou não?
— Para onde?...
— Ora essa! Viajar! Pois não acabamos de tratar disso?...
— Ah! sim, respondeu o moço, fechando levemente os olhos e mudando de posição na cadeira.
— Mas então?
— É! havemos de ver...
— Ora! estás insuportável!
Gabriel não ouviu já esta última frase, espetou de novo o seu olhar no teto. O padrasto fez um gesto de impaciência e pôsse a andar de um para o outro lado da sala.
Ouviase o relógio palpitar a um canto, e o crepitar das asas de uma abelha, que lutava contra a vidraça da janela. A casa tinha um profundo ar de tristeza; sentiase que nem sempre por ela circulava o ar, e que aquelas paredes e aquele teto não estavam habituados ao eco alegre do riso de crianças e vozes de mulher. Gaspar, depois de muitas voltas pela sala, foi postarse novamente defronte de Gabriel.
— Então? disse, vendo que o enteado não dera por sua presença.
— Hein? repetiu o rapaz, fitandoo abstratamente.
O médico então se aproximou mais dele, e lhe tomou uma das mãos. Gabriel deixou cair a cabeça sobre o peito.
Pobre criatura... pensou o padrasto, depois de alguns segundos; muito caro pagas tu a falta de mãe durante a infância! Não serias assim, inútil e perdido, se nos teus primeiros anos de mocidade te inoculasse ela com o seu amor, a idéia do bem e da justiça! E, quem sabe, se não teria eu também grande parte na tua miséria, meu desgraçado filho?... Fui o teu exemplo, o teu guia, o teu mestre; eu! o menos competente para isso, pois que me faltava energia, faltavame fé na própria vida; faltavame tudo, menos o tédio e a tristeza; eu sabia que era homem, apenas porque sofria! E é este despojo, é este espectro de homem, que há vinte anos representa para ti todo o teu passado e toda tua família! Ah! não serias sem dúvida o que és, se outro se houvesse encarregado da tua educação moral. Ameite, só porque vinhas tu de tua mãe. Quanto egoísmo, meu Deus! E, entretanto, o meu amor nunca te serviu de benefício, fezte ao contrário caminhar sempre na inútil sombra da minha árida tristeza... Eu me revejo em ti, querida vítima!
E Gaspar afastouse para chorar à vontade. Gabriel deixouse ficar na mesma postura, agora com o olhar ferrado no chão.
Pairavalhe o espírito entre duas vastidões inatingíveis e ambas igualmente desejadas; uma, porém, toda claridade de luz sidérea e matinal, outra feita de ardentes chamas agitadas e vermelhas. E os dois infinitos se abraçavam como o céu se abraça com o oceano. Tranças louras, crespos cabelos negros, anjo e demônio se confundiam numa única saudade! E o casto e tímido sorriso do anjo era avidamente bebido pela boca sensual e vermelha do demônio; asas brancas, cobertas de nupcial e imaculado véu, estalavam nas garras do lúbrico e formoso monstro vestido de granada e ouro; alva açucena emurchecia e calava o seu virginal aroma embriagada pelos quentes sândalos do inferno.
Gabriel estava em ambos, e sentia perfeitamente no íntimo do seu desejo, que, apesar de tudo, se pudesse escolher, ele sacrificaria ainda uma vez o anjo ao demônio.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.