Por José de Alencar (1872)
As duas rivais se afrontaram com o olhar, por diante da cara desfaçada do mulato. Os alvos dentes de Rosa brilharam engastados em um riso de escárneo, que lhe arregaçava os lábios carnudos, e dentre as fendas dos incisores partiu um rápido esguicho, que bateu em cheio na cara da outra.
Foi pronta a réplica de Florência. Vibrando no ar o braço habituado a manejar a enxada espalmou a mão na bochecha da mucama, que titubeou e decerto iria ao chão a não ampara-la o mulato.
Amâncio à vista do bofetão decidiu-se pela Rosa, e atirou à Florência uma cabeçada. Mas a preta agarrou-o pelos cabelos; e ele apertou-lhe as goelas a fim de livrar-se das garras daquela fúria. Entretanto a Rosa ferrava os dentes no ombro da rival, que defendia-se aos pontapés.
Os pretos da roça acudiram à sua parceira, insultada pela cambada de pajens e mucamas. Os capangas tomaram o partido de Amâncio por uma espécie de coleguismo; e assim tornou-se geral o banzé.
Agachado no meio do terreiro, bebendo seu pito, Monjolo que se retirara do batuque, observava com viva agitação aquela cena. Seus olhos saltados das órbitas, como dois lagartos negros quando pulam da toca, devoravam com uma volúpia feroz a figura de Rosa.
Felizmente acudiu o Faustino que ajudado de outros pajens, arrancou a mucama do sarilho; e levou-a à força para a casa.
À porta do administrador batia a sineta o toque de recolher.
XXI
O incêndio
Terminara a festa.
A escuridão profunda de uma noite brumosa envolve a casa das Palmas e os edifícios adjacentes.
Do borralho acamado sobre as extintas fogueiras apenas escapam raras fagulhas, que esfoliam-se no ar e se apagam.
Soa ao longe tropel de animais, intercalado às vezes por trechos de alegre descante. São ranchos de convidados que tornam às casas.
Da várzea, entre o zumbir dos insetos noturnos, perpassavam nos sopros da brisa as rascas da viola, que à porta da palhoça ainda arranhava por despedida algum caipira saudoso.
Pouco mais era de meia-noite. A função que prometia prolongar-se até lá pela madrugada, esfriara de repente, com bastante pesar dos velhos comilões, os quais não puderam atolar-se na lauta ceia, pois o tempo mal lhes chegou para fartarem-se uma só vez de cada prato.
Ferida nas duas cordas mais delicadas de seu coração, no amor de esposa e mãe, D. Ermelinda, apesar de grande esforço e do habitual disfarce que o trato da boa sociedade prescreve como regra de cortesia, não pode abafar a tristeza que lhe transbordava dos seios d’alma.
O amortecimento das maneiras afáveis e da graciosa amabilidade da dona da casa derramou nos convidados um súbito constrangimento; a festa perdeu desde logo a sua expansiva alegria; os mais desconfiados, ou os mais paulistas, cuidaram em retirar-se, que não acharam a costumada e carinhosa resistência.
Então começou a debandada. Ainda tentou Luís Galvão reanimar a folia; mas um olhar de sua mulher e o abatimento que se pintava em seu gesto, o demoveu logo do propósito de reter os amigos e prolongar os folguedos.
Já todos se haviam acomodado para dormir; só D. Ermelinda, com o mesmo traje da festa, que não despira ainda, velava imóvel no seu toucador.
Atirada ao fundo de um sofá, na sombra que projetava um vaso de porcelana colocado diante da vela para quebrar a luz, tinha os olhos ficos na imagem de N. S. das Dores, que se via sobre a cômoda em um nicho de jacarandá.
Talvez pedisse à Mãe de Deus, à divina consoladora dos aflitos, um conforto para sua alma, atribulada naquele instante por pensamentos que a enchiam de horror e angústia.
Nunca passara pela mente de D. Ermelinda pedir a seu marido contas de um passado que não lhe pertencia, e até por melindre natural evitara sempre folhear aquela página da mocidade de Luís Galvão. Advertia-lhe o coração das desilusões que ali a aguradavam; e por isso preservara a sua ignorância como um véu protetor contra as suscetibilidades e zelos de sua alma.
Subitamente, porém, quando menos esperava, surge-lhe aquele passado, dentre as alegrias de uma festa, e lança em seu espírito uma certeza fatal, a que por muitos anos e tão cuidadosamente se esquivara.
E sobre esse golpe, outro ainda mais cruel talvez para almas como a sua, apuradas por uma suprema delicadeza e uma esquisita sensibilidade. A forma rude e baixa por que se tinha revelado o passado de Galvão, sobretudo a magoou profundamente.
Se lhe contassem da mocidade de seu marido alguma afeição pura e generosa, no meio do seu desencanto, teria ao menos o doce consolo de haver delido d’alma de Luís aquela imagem querida, gravando sobre ela a sua.
(continua...)
ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.