Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Brasil, já se sabe, depois das duas que não é preciso mencionar. Mas ele sacrifica tudo à constância.” 

 

- É bem meu filho! Interrompeu D. Benvinda com assomo de orgulho materno. 

 

“ É verdade que não é ele o único; pois também outra pessoa tem sofrido sem pestanejar o fogo rolante dos mais feiticeiros olhos do Rio de Janeiro; mas, etc., etc., o resto pelo seguinte vapor.” 

 

Terminada a leitura, quanto Luisinha e a mãe se inclinaram para acariciar Bela e regozijar-se com ela por mais essa prova do profundo amor de Ricardo, viram, ao retirar-lhe o papel ainda aberto diante dos olhos, que tinha o rosto banhado de lágrimas. 

- Está chorando, Bela! exclamou Luisinha. 

- É de felicidade, menina; também eu tenho os olhos cheios d’água, disse D. Benvinda. 

Desde criança, de envolta ainda com os brincos da infância, começara Bela a amar Ricardo, com a efusão de uma alma que se entrega sem reservas de todo e para sempre. Estava em sua natureza querer com esse abandono de si mesma, sem pedir nem esperar retribuição. 

Quando Ricardo formou-se, não lhe permitindo as apertadas circunstâncias da família realizar desde logo seu casamento, Bela resignou-se a esperar, com plácida confiança, e possuída da inalterável convicção de fazer a felicidade daquele que a amava. 

Freqüentes vezes insistiu seu pai em convencê-la da necessidade de casar-se com o Felício Lemos, outro primo seu, também formado, que desde a infância a disputava a Ricardo, mas preterido sempre. Aos reiterados pedidos opunha a moça uma repulsa doce, magoada, quase súplica, mas inflexível. Ela julgava-se um bem de Ricardo; acreditava que deus a reservara para fazer a ventura desse coração, que ela admirava. Não discutia pois, não se defendia; refugiava-se em seu amor. 

Ao ler a carta de Fábio, no meio do espanto que produzia-lhe o tom leviano do estouvado a profanar as coisas mais santas, pela primeira vez uma dúvida cruel traspassou-lhe a alma. “Não era ela  a única mulher do mundo que podia fazer a felicidade de Ricardo? Havia para esse homem outra ventura, outro futuro, outra existência, além que de lhe devia dar o seu amor?” 

Com o soçobro causado por essa primeira percussão d’alma, arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas sem que ela mesma soubesse por que chorava. Assim, quando ouviu a explicação que D. Benvinda deu a seu pranto, disse com um sorriso contrafeito: 

- Há de ser de alegria mesmo! 

Momentos depois recolhia-se Bela à sua casa e achou na sala o pai, o Dr. Lopes, em companhia de Felício Lemos. 

- Estávamos falando em você, Bela, disse o pai que dobrava um papel. 

- Meu tio! Vm. prometeu-me que não contaria a Bela, disse o Lemos com exprobração. 

- Mas é necessário que ela saiba, para perder a ilusão em que vive; portanto dispense-me da palavra que lhe dei.

- Perdão, meu tio, eu o respeito muito, mas neste ponto não devo condescender. Bela pode suspeitar que são meios empregados para demovê-la de sua resolução. 

- Todos sabem que você é incapaz disso. 

- Embora; não quero ser portador de más novas. 

- Mas o que é, meu pai? perguntou Bela. Alguma notícia triste? 

- Eu lhe digo. Ao passo que você espera com uma constância nunca desmentida ao homem a quem prefere sem razão, o ingrato lá na corte está tratando de arranjar um casamento rico. 

- Ricardo? disse Bela com sublime confiança. É impossível, meu pai. 

O Dr. Lopes desdobrou a carta que tinha em mão e apresentou-a à filha.

- Ainda duvida? pois leia, Bela! 

- O senhor me compromete! disse Felício com reproche, afastando-o do lado da janela. 

Surpresa, e cerrado o coração de pressentimentos, correu Bela os olhos pelo papel. 

A carta escrita ao Felício por um colega da corte, repetia os boatos da Rua do Ouvidor que davam Ricardo como pretendente assíduo da filha do banqueiro Soares e o preferido entre todos pela moça. 

- Então? perguntou o Dr. Lopes à filha quando esta acabou de ler. 

- Ricardo não falta à sua palavra, meu pai. 

E deitando a carta sobre a mesa, recolheu-se à alcova. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8889909192...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →